Corpos novos, velhas prisões

por aderaldo

Em fins do século XVIII começou-se a produção de obras que fugiam ao modelo realista. Ora, essas obras tiveram inspiração no modelo gótico, medieval, e muitas foram consideradas inferiores ou primitivas. O modelo iluminado não comportava trevas, escuridão. Em 1818, porém, surge uma novela capaz de mudar esse paradigma.

A história do cientista que em sua obstinação buscava resposta para a energia vital e o reavivamento de um cadáver é o argumento que fez de Frankenstein, de Mary Shelley, uma das mais conhecidas obras do mundo.

O cientista Victor Frankenstein é um jovem a quem a vida fascina. Criar a vida seria para ele a suprema realização. Seus conhecimentos de Anatomia e Física levam-no a imaginar-se capaz de produzir a centelha primordial.

Frankenstein rouba cadáveres e com eles produz seus experimentos. Ele não quer tão somente conhecer o corpo humano. Seu cérebro busca mais. Quer o que hoje está se tentando produzir, a experiência vital, a inseminação in vitro, a clonagem. Sem a tecnologia, nem os avanços científicos de hoje, acredita que a eletricidade, num crédito desesperado aos avanços e descobertas tecnológicas da época, ofertaria a vida.

A história contemporânea e a sociedade moderna abrigam descendentes do monstro Frankenstein. Durante a Segunda Guerra o apelo nazista voltava-se para a criação da raça perfeita. Experimentos criaram aberrações. Milhares de deformados, outros milhares de mortos. Membros, órgãos e vísceras transportados em experiências fracassadas. A maior produção de intervenções corporais da história humana, para, como na caso da literatura, apenas desvelar a loucura de certas mentes.

Transplantes e implantes para a regeneração ou estética do corpo são realizados nos porões de clínicas, como naquele mesmo ambiente medieval em que magos e médicos produziam seus estudos. Um implante de mão num paciente neo-zeolandês, um indecifrável Michel Jackson, os silicones em corpos redondos ou de relevo irregular, bocas e narizes diminuídos ou aumentados, operações de retiradas de órgãos genitais foram fortalecidos aparentadamente à busca desesperada do Barão de Frankenstein.

A modernidade alinha-se com o gótico. Corpos perfurados por metal, piercings e implantes de próteses são herança do homem na busca do invólucro, do simulacro para sua identidade. Uma mudança cosmética, de apetrechos. Se a novela de Mary Shelley causou espanto, hoje ela convive anônima, meio a corpos reavivados por auto-intervenções.

A construção do corpo tem sido a febre social de muitos tempos. Faraós dormem em suas tumbas preparados para o retorno final. Homens são congelados, na crença de que um dia todos os males tenham cura. A Internet causa espanto com parceiros que se conhecem apenas por uma foto ou outra, que não são exatamente as suas, mas a idealização de si mesmo.

Enquanto isso, Dolly, a nossa ovelha clonada, foi sacrificada. O primeiro ser, fruto de clonagem, envelheceu precocemente, vulnerável e pálida, num recanto, sem pompa ou circunstância.

Há duas forças inexpugnáveis no Universo: o tempo e a vida. Um fez pacto com o outro e a matéria submete-se a ambos. Resta a máxima de Miguel de Valverde, mais uma vez: a vida é ávida. A vida mente, avidamente.

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