A mulher que amo

por aderaldo

A mulher que amo é negra. Tem pele negra e me visita à noite: minha Lilith particular, minha fada madrinha e ela mesma a própria Cinderela, cujo sapato de cristal do tempo rolou pela escadaria dos séculos e ficou em minha mão de milenar sentinela, à espera da completude.

A mulher que amo tem um corpo negro. Tem seios gostosos que me enchem de água o palato, irrigando minha língua de saudade e meus lábios de misterioso desejo. É ela quem oferta úberes macios às minhas mãos. Um ventre para repousar minha nuca, um colo para satisfazer meu cansaço.

A mulher que amo tem um rosto forte. Tem olhos que vêem. Mais que vêem, falam; mais que falam, cantam; mais que cantam, choram; mais que choram: portas para um coração bondoso, com rosas vermelhas para que o meu, num instante de sonho, seja surpreendido com carinho extremo e beleza além.

A mulher que amo me diz cada coisa que qualquer de fora pensaria até que o Universo ruiria e a Via Láctea, rua espiralada, engoliria o Sol, por conseguinte a Terra, e a trombada cósmica nunca existiria. Ela tem coragem de se expressar. Não se omite e fala, e grita se preciso pelo seu espaço.

A mulher que eu amo carrega sobre si armas de guerreira que não foge ao embate, mesmo com receios de se espatifar contra a dor mais cruel. Quantas mil batalhas ela enfrentou, quantos inimigos foram derrotados e quantos não fugiram ao sentir a ira da mulher mais forte que eu já encontrei.

A mulher que eu amo me estende a mão. A mulher que eu amo se estende viva sobre a minha vida e se alastra vívida sobre o meu viver. Derrama seus óleos pela minha boca. Inebria minha alma com doces palavras. Entorpece meu corpo com carinhos caros e com beijos certeiros me põe para dormir.

A mulher que eu amo tem um gênio forte. Não deixa que eu dite minhas regras tolas e nem quer que as dela sejam a cartilha mais original. Não se entrega ao tronco nem à submissão. Como luta e briga e se engalfinha pelo que acredita e como está aberta a ouvir meus grilos e me entender.

Não tenho qualquer receio de falar mais alto: — A mulher que eu amo me dá um prazer inteiro quando me abre as pernas e me oferta o céu e todas as portas do paraíso carnal. A mulher que amo é um vendaval e seu sexo pulsa entre os lábios meus.

A mulher que amo e amo tanto faz-me acreditar que escrever é um ato santo. Ela é meu salaminho, meu polenguinho, minha pinha. A mulher que amo me alça à categoria de príncipe encantado e eu a promovo de coca-cola simples para chá mate light. Em que bocas encontrarei a mulher que amo?

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