Bifurcações

por aderaldo

O sábado lá em Areia, cidadezinha esquecida no interior da Paraíba, é o dia da feira. Dia de festa para a criançada. Neste dia, Lucas, 11 anos, não sabe, mas terá quatro encontros decisivos. Vai à feira com Zuzu, 10 anos, comprar rapadura. Dá-se a seqüência de encontros:

1. O ventríloquo com seu boneco Benedito: a idéia de um boneco que fala impressiona tanto que Lucas espera ele ser deixado num canto da barraca do propagandista para observá-lo mais de perto. E o boneco, deitado, abre os olhos e pergunta: — O que quer? Lucas corre e se perde do amigo.

Meu coração é um galo
Cantando toda manhã
De olhos abertos canta
passando a guriatã
E nessa metamorfose
Sem linha e agulha cose
Meu sentimento de lã

O meu peito é o terreiro
Onde o mesmo galo cisca
O alimento do galo
Tem substância que arrisca
Coceira de carrapicho
E o galo ciscando o lixo
Não fecha o olho, nem pisca

Meu galo canta sozinho
No seu terreiro limpinho
Em serenatas de vida
Fugindo do desalinho
Com a rima dos menestréis
Meu galo cava com os pés
Os alicerces de um ninho

2. Os emboladores de coco: fugindo do boneco, Lucas se encontra no centro da roda onde dois emboladores divertem a platéia com seus repentes ao som do pandeiro. Um deles ao ver o menino assustado faz um verso sobre sua cara branca e surpresa. Envergonhado, Lucas escapa sufocado do meio da roda.

— Menino tomai cuidado
Com as vozes que escutais
Porque o poço da vida
Já nos dá vozes de mais
Esse boneco não fala
Há outra fala por trás

— Não zombe assim do rapaz
Pois isso ele já entende
Mesmo o boneco falando
A voz não o surpreende
O ventríloquo é um boneco
Que outro boneco suspende

— Quando essa luz se acende
A luz da sabedoria
De ver além do que é visto
Ciente da fantasia
A lua ultrapassa a noite
E o sol subjuga o dia

— Você usa a poesia
Para ilustrar a dureza
De despir a ignorância
E promover a surpresa
De ofuscar a mentira
Com a luz da verdade acesa.

3. No setor de carnes, o açougueiro se acidenta cortando o braço: Lucas percebe que a carne e o sangue do homem são iguais ao que está exposto à venda. A visão do homem sangrando, de sua carne exposta e das carnes sobre o balcão, também sangrando, lhe causam um mal-estar.

Do bumba-meu-boi eu quero o boi
Morto. Vida pr’irmãos mortos, cem
Vidas embevecidas de dor, esfomeadas
Ao depois, ao durante e mesm’ao antes.
Arlequins, Mateus e Catirinas
Aos cantos de comida em desatino
Do cavalo marinho no quintal,
Numa festa de barro, lama e lodo,
Aos gemidos de cinco violados
Degustaram Bandeira+Cabral.

4. Atordoado, Lucas sai do mercado :reencontra Zuzu que segue com um bando de meninos atrás de um palhaço gritando: — Hoje tem espetáculo? Incorpora-se ao cortejo rindo, guardando os pedaços daquela feira para suas bifurcações futuras.

Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.

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