E eis o corpo humano

por aderaldo

No ano de 1543, o médico Andrea Vesalius, nascido em Bruxelas, publica um livro em sete volumes chamado De Humani Corporis Fabrica, Libre Septem, mais conhecido como o Fabrica. Considerado um dos maiores livros da medicina de todos os tempos, essa obra é a primeira tentativa real de representar o corpo humano anatomicamente por meio da ilustração. Anatomistas anteriores a Vesalius tentaram, mas esbarraram em leis que não permitiam a dissecção de seres humanos, além do que suas tentativas estavam presas aos erros e equívocos do nome mais conhecido da medicina da antiguidade, Galeno.

Sucessor de Hipócrates e Aristóteles, Galeno descreveu o corpo humano a partir de suas observações como médico do Coliseu Romano, quando atendia gladiadores e cristãos feridos na arena. Em seus braços passaram corpos abertos e suas vísceras expostas, seu sangue jorrando, suas vidas fugindo. Embora participasse desse espetáculo, Galeno nunca dissecou cadáveres humanos. Trabalhava apenas com animais, fazia suas aproximações e tirava conclusões. Suas descrições do corpo humano se aproximam muitas vezes do corpo de bodes e cachorros. Entretanto os erros de Galeno perduraram por 14 séculos e eram tidos no grau de sagrados.

O primeiro a realizar e descrever dissecações de humanos foi Mondino DeLuzzi, de Bolonha. Escreveu em 1316 seu livro Anathomia que, mesmo trabalhando com humanos, não percebeu os equívocos de Galeno. Dessa forma, o baço continuou desembocando no estômago, o fígado continuou apresentando cinco lóbulos, o coração aparecia ainda com três ventrículos.

Berengario da Carpi, em 1521 foi o dono da voz rebelada na Renascença. Em seu Comentários à Anathomia, teve a coragem de corrigir Galeno. O coração perdeu um ventrículo, o útero deixou de ser segmentado e outros órgão tomaram localização exata. O corpo humano representado por Galeno e Mondino, abandonava sua característica deturpada e começava a parecer-se com o Homem.

Quando Vesalius publica sua Fabrica o mundo conhece pela primeira vez a representação realística da anatomia humana. As descrições passam a ter o suporte da ilustração. O homem de papel alcança o status de mimesis. O ilustrador, John Stefanus, pintou à mão cada figura, cada esboço foi estudado com apuro e tempo que veio sacudir a medicina e a ciência, adormecidas que estavam pelo ferro inquisidor da Igreja Católica.

O Livro 2 da Fabrica é uma respresentação de todos os músculos do corpo humano. São treze ilustrações de homens musculosos exibindo detalhes do mais profundo ao superficial.

O trabalho de Vesalius não foi de todo perfeito, alguns órgãos e vísceras não foram bem localizados e outros deixaram de ser citados. Ele trabalhava muitas vezes com corpos já em putrefação e muitos desses órgãos não mais existiam ou se confundiam com outros. O pâncreas, os ovários e as glândulas supra-renais não foram vistos por ele.

Ao dissecar corpos femininos, pelo menos dois, Vesalius descobriu o hímen guardando a cavidade vaginal. Porém, um de seus seguidores, Gabriel Falópio, foi quem descobriu e nomeou os ovários e suas trompas, que têm seu nome. Vagina, placenta e útero são designações dadas por Falópio.

Aqueles que vieram depois de Vesalius encontraram um caminho já mapeado. Enquanto ele teve de descobrir o caminho à mão, seus seguidores apenas seguiram seus esquemas, aproveitando para corrigir algum deslize do mestre. O corpo humano iniciava sua trajetória de objeto mais representado da ciência e da literatura.

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