Miguel de Valverde, pensador

por aderaldo

1. Miguel de Valverde dizia em segredo para os que o ouviam: — Falar é para todos; ler, para alguns; escrever, para pouquíssimos; raríssimos ouvem! Essa máxima valverdiana é uma pérola, ainda mais em nossos dias de falas tão tonitruantes e intempestivas.

Esquecendo o ouvir, exercício de sábios, e o falar, ferramenta preferida dos messias, nos prendamos ao ler e escrever, tarefas árduas para todos nós. O ato de ler requer um esforço descomunal. A batalha, a guerra, a luta com as palavras, embora vã, como disse o poeta, deixa-nos marcas, cicatrizes e tatuagens para a eternidade.

Escrever é ver para crer. A captura das palavras é exercício dos mais pesados, mas há oásis e, mesmo não parecendo, há também trilhas por entre as dunas, mesmo nos mais inóspitos desertos. Minha vida é procurar essas trilhas.

2. Há certas nuanças na política brasileira que parecem ficção. A imprensa noticia diariamente casos de políticos e homens públicos envolvidos em desmandos, atos ilícitos ou/e ilegais. Brasília é alvo de constantes investidas e frases como “É preciso passar o Brasil a limpo” caíram na boca do povo.

Quando nos debruçamos sobre o passado, o mais distante passado, encontramos raízes desses males. Um poeta, nosso primeiro poeta genuinamente brasileiro, agiu como que arauto denunciador. Muito embora não tenha publicado suas obras em vida, a descoberta de sua lavra lançou novo olhar sobre a história literária brasileira. Gregório de Mattos e Guerra, o Boca do Inferno, foi o poeta.

3. Miguel de Valverde, salvo do desastre em que naufragou a nau de Vasco de Ataíde, uma das componentes da esquadra de Cabral, ao chegar em Moçambique comprou um pequeno exemplar do Dom Quijote de la Mancha, de Cervantes. No quarto escuro e decadente em que se encontrava, recolhido, demorou três dias para ler romance. Dias em que não levantou-se, nem para comer. Bebia apenas, de sua pequena moringa, um ou dois goles de água e de um pequeno cantil, feito de chifre de unicórnio, três ou quatro tragos de vinho.

Dizem e atestam alguns críticos que o Quixote inaugura o romance moderno. Traz em si uma particularidade: aproveita-se das novelas de cavalaria medievais e cria um universo repleto de citações, paródias, epígrafes. É um romance criado a partir da intertextualidade, do entrecruzamento de textos, do diálogo, do recorte. No mesmo caminho, alguns séculos depois, Ulysses, de James Joyce, reinaugura esse romance. Já a partir do título percebe-se a intertextualidade com a Odisséia, do grego Homero. Ulysses é Odisseu, herói grego na guerra contra Tróia.

A intertextualidade transformou-se na marca e no marco distintivo da literatura. O caso mais conhecido na literatura brasileira é o da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, transformada na peça literária mais parodiada e citada de nossa literatura. Desde Casimiro de Abreu cumpriu uma trajetória incomparável até os modernos e pós-modernos. Intertextualidade é lema de minha prática.

4. Naquela noite, tenebrosa noite, quando os raios e os trovões procelaram o mar e uma tempestade assolou a cidade de Maputo, Miguel de Valverde, o pensador renascentista, refugiou-se nos sonetos de Camões. E leu, nas Rimas, aquele que o poeta português dedicou à Dinamene, às margens do Mekong, depois do naufrágio e morte de sua amada. Valverde, em seus sexagenários anos, sentiu um arrepio pela espinha, que terminou por alojar-se em suas pálpebras, espremendo-lhe os olhos e fazendo-o chorar.

A noite aprofundou sua treva e o tempo aprimorou seus urros. Alguma força estranha brincava de assombração. Tempos depois, no Engenho Pau d’Arco, na vetusta Paraíba, um poeta atormentado chamado Augusto dos Anjos, leria o mesmo poema. A lua, em quarto minguante, entrava pelo vidro da janela e se pronunciava no assoalho. Lá fora, correndo pela várzea, o Rio Paraíba respirava seus mortos e banhava seus vivos. A sombra da chaminé do engenho era uma espada sombria furando o ventre azul-petróleo do céu. Augusto reparou que anjos iam e vinham na noite.

5. O que tenho me perguntado com freqüência é se, pelo menos, nesses anos todos de docência em Literatura Brasileira, sei exatamente o que é um romance. Poderia dizer que sim, pelo número de obras que já li, mas também poderia dizer que não, pelo número superior de obras que não li. O que li representa uma ponta de cigarro no deserto da produção literária do último ano do séc. XX. Produziu-se mais literatura no primeiro ano do séc. XXI do que em toda a Idade Média. O que fazer,então, num país que já entrou na história literária mundial queimando etapas e desenvolveu, às pressas, uma identidade literária recheada de êxitos?

Alguém nos disse, não sei se Saramago, que o português é a língua do isolamento. Estamos, nós lusófonos, exilados sob nossa língua. E nós, brasileiros, mais ainda: exilados sob nossas misérias, nossas valas comuns e desesperos. Sob essa égide pergunto-me novamente: o que é o romance? O que é um romance? Quais seus ingredientes? Aceito respostas, sabendo desde já que as respostas suscitarão novas e mais intrincadas perguntas. Caso cheguemos a um consenso perguntarei: o que é o romance brasileiro? O que é um romance brasileiro? E, se restar-nos um pouquinho de coragem: o que é o romance brasileiro contemporâneo?

Não nos afobemos. Como diria o poeta “vamos de mãos dadas” pelas trevas hediondas do labirinto com seu minotauro, sem fio de Ariadne ou com algum fio frágil, frívolo e fugaz, talvez frenético, frêmito, fugidio, fundido em formas fraudulentas e fechadas de fiapos. Sejamos solidários, porém: naufraguemos todos, ali à frente há uma ilha chamada CINEMA.

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