De um certo Memorial Tapuia

por aderaldo

1. O mundo era verde. Houve um ano de seca, no qual, lembro de lembrança bem viva, nós não tínhamos nada para comer. E era nada mesmo. Nem farinha. Fora desse ano, antes, lembro de ter recebido de minha mãe um facão. No dia seguinte, às quatro horas da madrugada, tomávamos café com cuscuz, peixe seco, queijo de coalho e banana. Depois andamos até o ponto onde o caminhão nos apanharia e levaria para o meu primeiro dia no corte de cana-de-açúcar. Em cima do caminhão, umas quarenta pessoas. Os meninos e as mulheres imprensados no meio dos homens, todos em silêncio. O sol nasceu por trás do canavial ondulante. Era muita cana, muito verde. O vento fazia um ruído como se fosse uma cachoeira esgotando água. Já na tarefa, minha mãe seguia à frente, cortando as canas, e eu um pouco mais atrás juntando os olhos de cana, cortando as folhas e elas me cortando. A folha da cana de açúcar é um facão cujos dentes fincam-se nas mãos em forma de pelo. Foi minha primeira lição. Meu primeiro caderno tinha pautas de imensos leirões. Meu lápis escreveu naquelas linhas de terra preta, o massapé, de orvalhos cristalinos pendentes das folhas e de sangue das pernas e mãos e rosto, a cada corte sofrido no labutar contra a natureza. Minhas mãos ficaram grossas como as dos homens mais antigos.

2. Um percurso do pensar. O meu ingresso no Mestrado em Poética foi um marco. Mesmo sem bolsa, casado e com quatro filhos, aos 35 anos, tendo que trabalhar arduamente, não me deixei ser tragado pelo canavial de dissabores. Agora não eram apenas mãos grossas. Eram pés rachados, que não acreditam no terreno que pisam, e olhos fatigados, buscando cores bem mais que FLICTS. Fui moldado ao som dos cantadores. Lampião roubara meu couro para seu chapéu. Minha cartilha foi O Boi Misterioso. O Nordeste pulsa em mim. Resolvi pagar o meu tributo, meu dízimo, minha dívida-dádiva-dúvida. A dissertação Literatura de Cordel: uma poética para os heróis degolados raptou-me. Em seu emaranhado descobri ancestrais numa árvore genealógica tapuia. Encontrei meu DNA mais autóctone. Minha viagem quanto mais mar, mais sertão. Quanto mais Corcovado, mais Pico do Jabre. Quanto mais Baía de Guanabara, mais Rio São Francisco. Mais metrô, carro-de-boi. Avião, Pavão Misterioso. O sangue tapuia compreendeu: antes dos Cabrais, minhas epopéias, intercurso épico, interrompido pelo intruso opaco. Alinhei com os extintos, mas não pense em minha extinção. Quis ver a Literatura de Cordel como matéria épica. Encontrei entes soterrados que vão agora neste alforje a tiracolo.

Quis entender a relação com África. Esbarrei em Mia Couto, Pepetela. Foram uma porta e uma janela. Um abismo. Quando o mundo descobrir África-letra, o letramento será concretizado. Encontrei o negro cantar, a Negritude. O choro, lamento: Pan-africanismo. Não há o Continente Negro: há o conteúdo. Não há o deserto ao norte: o Norte é o deserto. Acredito que irei mais fundo desse navio. A união entre a Umbanda, indígena, e o Candomblé, negro. As flechas do caboclo e as achas do Preto Velho.

3. Ainda te trago em minha boca.
Ainda te trago. Em minha boca
Peripatética malagueta em cio
É fumo, fome, fama, fêmea, fim
Pode até ser água. Anágua, afago
De desorientado girassol.
Assim me entras: serpentina viva
E retornas como pirilampos
A luz fragmentada em conta-gotas
Alfinetadas feito um Raio-X.

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