Uma po-ética para os heróis degolados

por aderaldo

1. Quanto ao que aconteceu com nossos índios, o que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

2. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. Para nações ágrafas como eram, o velho ditado latino confirmou-se: verba volant, scripta manet. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família. Um índio chamado Galdino. Um índio chamado Jesus. Dos Santos.

3. Nos anos em que se seguiu o modelo colonizador português previu-se índios sendo usados como peças de tiro ao alvo, na mira das escopetas ou primitivos parabéluns. Nos quinhentos anos separadores das agressões, do achamento ao assassinato de Galdino, as qualificadoras do crime são compatíveis e bem poderiam ser retroativas, com uma atenuante: a vítima já é tratada como ser humano, mesmo que a fogo (e aqui os casos se equiparam novamente). O genocídio deu-se enquanto o “exterminando” dormia. A metáfora para a posse do território consagra essa tese: descobrimento. Arrancou-se-lhe o cobertor, virou-se-lhe a cama, incendiou-se-lhe o sono, fecundou-se-lhe o pesadelo.

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