Catástrofes, futuros e bem-estar

por aderaldo

No dia 26 de dezembro de 2004 o mar não respeitou seus limites e, provocadas por um maremoto, suas ondas gigantes subiram a terra, provocando milhares de mortes. A imprensa do mundo rodou relatos e imagens da tragédia. Foram aproximadamente 300 mil mortos e outros milhares de desabrigados e desaparecidos.

Logo após o acontecido, o mundo cristão abalou-se com a declaração de algumas seitas fundamentalistas de que o sinistro seria promessa de Deus, como ocorrera antes com Sodoma e Gomorra, arrasadas por hecatombes não muito bem esclarecidas, mas insistentemente alardeadas como manifestações da fúria divina contra o pecado.

Alguns dias depois da tragédia, em 12 de janeiro de 2005, o Clube de Paris, reunião dos países mais ricos do mundo, resolveu em assembléia extraordinária, congelar e até perdoar a dívida dos países atingidos, seguindo, assim, a orientação do G7, grupo dos países mais industrializados.

Em 13 de março de 2005, notícias afirmavam que sobreviventes e familiares das vítimas do maremoto processariam judicialmente a agência do governo americano que opera o Centro de Advertências de Tsunamis no Oceano Pacífico, acusado de não empreender ações suficientes para proteger os atingidos.

Já em 15 de março de 2005, os governos da Alemanha e da Indonésia anunciaram a criação conjunta de um projeto de alerta para tsunamis no Oceano Índico. Parte dele funcionará já em outubro de 2005, contando, até lá, com um aparato de 25 sismômetros e 10 sistemas de GPS, com sensores instalados no fundo do mar.

Esse cronograma resumido pretende refletir sobre os desdobramentos, em diversos setores da sociedade mundial, de um fenômeno cuja causa foge ao controle do homem, assentando-se sobre o que Freud disse ser uma das três causas do mal-estar de nossa civilização: a arbitrariedade da Natureza submetendo o Homem. O famoso ensaio freudiano O mal-estar da civilização aponta em seu terceiro capítulo:

Já demos a resposta pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade.

O que pretendemos pensar nesse post é de que maneira aquele acontecimento e seu calendário de ações mundiais posteriores refletem a consistência do movimento denominado Globalização; a eficácia do progresso na criação de elementos geradores de bem-estar; e o estabelecimento, a partir do fomento de sociedades concentracionárias, de culturas hegemônicas globais.

Partiremos, pois, de um porto não muito seguro como sói tudo ser nesse séc. XXI: a futurologia. Esse termo ambíguo e escorregadio sofre olhares desconfiados por aparentemente alinhar-se com outros de não muito, ou nenhum, respaldo científico. Não se trata, entretanto, de ciência oculta ou magística. Valemo-nos de um de seus criadores, Herman Kahn:

A verdade é que “futurólogo” é uma palavra mal inventada, porque se assemelha a astrólogo e para as pessoas isso possui muito pouca seriedade. No entanto, a futurologia não é uma ciência. Em grande parte da Europa e dos Estados Unidos é considerada um movimento ideológico de esquerdas de caráter humanístico. Nós chamamos ao nosso trabalho “investigação de política pública para saber como poder melhorar as decisões”.

O trabalho desses investigadores, presume-se daí, é observar o futuro a partir do presente, projetá-lo, sem querer adivinhá-lo. Em seus escritos, os fatos científicos e inovações tecnológicas brotam de experiências e experimentos em processo, ou processados. Se não seriam tão somente ficção científica. Na década de 1970 surge, talvez, o primeiro livro de abrangência mundial sobre o assunto e seu autor, Alvin Toffler, se tornaria best-seller. O choque do futuro em sua 5ª edição brasileira anunciava mais de cinco milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. A sua primeira parte tem o sugestivo título de A morte da permanência. Trata de aspectos da sociedade os mais variados e prevê mudanças cruciais nos relacionamentos internacionais.

O mesmo Toffler aprofunda seu olhar e dez anos depois vem com A terceira onda. Se O choque do futuro procurava analisar como nos adaptamos às mudanças e como elas acontecem, este revela um autor sob o impacto de um mundo movente, sem pedras fundamentais ou alicerces firmes. Tudo parece caminhar para o movediço. Diz Toffler:

Neste contexto confuso, os negociantes nadam contra correntes econômicas extremamente caprichosas; os políticos vêem as suas classificações subirem e descerem loucamente como bóias de cortiça; as faculdades, os hospitais e outras instituições lutam desesperadamente contra a inflação. Os sistemas de valores se estilhaçam e se destroem, enquanto os botes salva-vidas da família, da igreja e o estado são violentamente sacudidos.

Não seria só isso. A constatação apontava para uma década de mudanças e adequações tão mais violentas do que jamais se poderia pensar. O mundo estava ainda dividido nos dois blocos e a guerra fria atingira seu auge. Impensável e imperscrutável o que estaria por acontecer. Numa madrugada de outubro de 1989, uma picareta arranca pedaços do muro de Berlim. Aquele que era o ícone da bipolarização do mundo desapareceria no ar, como antes já se propusera.

Antes de completarmos o comentário sobre a trilogia de Toffler, completada com Powershift, voltemos a Herman Kahn. O seu primeiro livro sobre as mudanças no futuro, datado de 1967, O ano 2000, em colaboração com Anthony J. Wiener, antecipava aquilo que Toffler constatava, mas naufragava numa premissa, pela tensão mundial de então. Kahn acreditava num Império Soviético inexpugnável, acreditando na corrida armamentista com frutos sempre catastróficos. Viu-se o contrário. Em A prosperidade está próxima, de 1980, depois de constatar a superioridade militar soviética, conclui:

Para os soviéticos, a guerra nuclear apresenta um caminho possível, ainda que indesejável, de fazer nascer o comunismo mundial ({para que se torne o poder dominante} no mundo pós-guerra (se se saírem bem), ou então de planejar um papel bem menor para o comunismo, e para si mesmos (se se saírem mal). O argumento “mera intimidação”, portanto, não é suficiente assustador para os soviéticos.

É compreensível a leitura de Kahn. Mas entre ele e Toffler há uma diferença básica. Acreditando na bipolarização, ele pára, enquanto o outro, observando a mudança dos atores globais, percebe o deslocamento do poder. Consegue perceber sua linha migratória, seu assunto principal em Powershift:

Desde o término da Segunda Guerra mundial, duas superpotências dominaram o mundo como se fossem colossos. (…) Hoje, claro, esse ato de equilíbrio acabou.
Há uma forte razão para acreditar que as forças que agora sacodem o poder em todos os níveis do sistema humano irão tornar-se mais intensas e penetrantes no mundo imediato.
Dessa maciça reestruturação das relações do poder, tal como o deslocamento e a trituração de placas tectônicas antes de um terremoto, surgirá um dos mais raros eventos da história humana: uma revolução na própria estrutura do poder.

A metáfora para a mudança (placas tectônicas em deslocamentos) é apenas coincidência com o início de nosso ensaio, mas vem a calhar. Essa mudança, que abre rasgos no chão e na estrutura do mundo tem um nome: globalização. Se os futurólogos não cunharam a nomenclatura, a perceberam. Cada um a sua maneira.

Quando John Naisbitt publica o seu Megatendências, em 1982, prevê uma nova riqueza em gestação: o know-how, o conhecimento. E abre suas especulações com a apresentação de uma sociedade industrial migrando para uma sociedade de informação. Não só isso. Prega o poder dessa informação, afirmando: A nova fonte de poder não é o dinheiro nas mãos de poucos, mas informação nas mãos de muitos. Para, logo a seguir, advertir:

— A sociedade da informação é uma realidade econômica, e não uma abstração intelectual.
— As inovações nas comunicações e na tecnologia de computadores acelerarão o ritmo da mudança, encolhendo o tempo de transmissão das informações.

Quem duvidaria? Vejamos o tráfego de informações e o tráfico das mesmas nos milhares de sítios internéticos. Naisbitt ainda acerta: A explosão do computador doméstico está em curso. E será logo seguida de uma explosão no software, que a alimentará. E nós apenas constatamos. Exemplificando: o caso da construção de nosso pequeno calendário sobre a tsunami e suas conseqüências. Levamos pouco mais de cinco minutos para encontrar o que queríamos, na seqüência exata. Velocidade na informação e em sua busca pelo programa utilizado.

Oito anos depois, Naisbitt, em Megatrends 2000, fortalece seu ponto de vista:

Estamos nos aproximando do dia em que teremos capacidade de comunicar qualquer coisa para qualquer pessoa, em qualquer lugar, de todas as formas — voz, dados, texto ou imagem —, à velocidade da luz.

Essa eficácia aplicada à globalização é apenas uma face da mesma. A globalização não é apenas informação veloz e furiosa. E, mesmo embutindo um mecanismo unificador, sua eficácia pode também representar sua ineficácia. Aquele calendário do início mostra-nos três reações às tsunamis que podem nos embalar nessa seqüência reflexiva. Há uma reação cultural: os religiosos fundamentalistas cristãos arrefecendo suas diferenças contra os muçulmanos, já que a maioria da população atingida pertencia a países de religião islâmica; outra reação político-econômica: o Clube de Paris reunido para perdoar dívidas de endividados, mobilização global de apoio econômico e material, visitas e vistorias dos representantes políticos das nações mais ricas; e mais uma reação tecnológica: a ineficácia do equipamento do Pacífico e a construção, em parceria, de um intrincado sistema de prevenção, baseado em transmissão de dados via satélite.

Medir a eficácia globalizante pelo viés da circulação de informação resulta, dessa forma, em ação falha, desprovida de observação. E mesmo essa ação sofre resistências bem esclarecidas. Como nos mostra Milton Santos no livro Por uma outra globalização:

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias — para aqueles que realmente podem viajar — também se difunde a idéia de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão.

Santos reverencia a técnica, mas questiona o seu alcance. Aquela velocidade e esse mundo sem distâncias não pertencem a todos. Podem até afetar, mas não mudam, não transformam. E aqui nos deparamos com o fracasso essencial do progresso e a busca incessante pelo bem-estar. Todos os futurólogos consultados são unânimes na previsão de melhoria de vida pelas mãos do progresso, esse caminhando de mãos dadas com as revoluções técnico-científicas. John Naisbitt, em Megatrends 2000:

O flagelo da AIDS e o sofrimento que tem provocado simbolizam nossa ignorância sobre nossos corpos e seus preciosos sistemas imunológicos. No entanto, à medida que aprendemos mais sobre o poder da visualização positiva e imaging na saúda das pessoas, estamos próximos da capacidade de ver dentro da própria natureza da célula humana, até mesmo o próprio código do DNA.

Alvin Toffler, em Powershift:

O que faltava era a tecnologia. A disseminação da interatividade em rede irá colocar os instrumentos para os “jogos” políticos em milhões de salas de estar. Com eles, os cidadãos poderiam, pelo menos em princípio, realizar suas próprias enquetes e formar seus próprios “partidos eletrônicos” ou “lobbies eletrônicos” e grupos de pressão em torno de vários problemas.

Herman Kahn, em O ano 2000:

A idéia de robôs a preço módico, realizando a maior parte dos serviços domésticos no ano 2000, pode ser de difícil aceitação à primeira vista. De acordo com um entusiasta (…) dentro de 10 ou 20 anos poderemos ter um robô que eliminará inteiramente todas as operações rotineiras do lar e o trabalho maçante da vida humana.

Fiquemos com as três citações. Mesmo que aconteçam, quantos de nós teremos acesso a essas maravilhas? Quando erradicaremos o vírus da AIDS do continente africano, porquanto a fome, a falta de saneamento básico, trabalho remunerado e outros flagelos são fantasmas tão presentes e tão atuantes? Para aqueles que habitam as periferias mais distantes das grandes cidades, em bolsões de miséria extrema, de que adiantará o Projeto Genoma? E a assinatura de uma tevê a cabo interativa quando estará disponível à massa? Um robô lavando roupas de quem não tem roupas no sertão nordestino do Brasil? A idéia de progresso cai por terra. Mas cai carregando uma certeza revelada por Piotr Sztompka em A sociologia da mudança social:

A explicação para tão longa trajetória (da idéia de progresso) está com certeza situada nas características fundamentais da condição humana: o eterno hiato entre a realidade e as aspirações, a existência e os sonhos. (…) O conceito de progresso alivia essa tensão existencial, projetando no futuro a esperança de um mundo melhor e dando como certo, como provável pelo menos, o seu advento.

Todos os esforços de compreensão das catástrofes naturais e as medidas tomadas para repará-las, minorá-las ou preveni-las abraçam esse conceito, essa esperança. Donos de corpos frágeis, nos debatemos meio aos perigos e armadilhas naturais. Navegar virtualmente pela rede mundial de computadores é prazeroso, mas e a conta a ser paga? E o computador para comprar? E o software para abastecê-lo? O esforço parceiro para a prevenção de tsunamis poderá resultar apenas em mais uma ação judicial de uma nação pobre contra uma nação rica. Esta que tudo pode e aquela que de tudo necessita. E o Katrina ainda estaria por vir.

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