Esse Cordel, esse Lampião

por aderaldo

Não queremos cantar um réquiem. Nem escancarar feridas. Nos moveu o desejo de descrever lacunas, pensar sobre os vácuos, tentar pontes, mesmo que pênseis. O fenômeno Lampião é visto tantas vezes isolado, apontado como produto de séculos de desmandos e injustiças no país dos nordestinos.

A colonização naquelas plagas nordestinas se deu por ciclos. O do açúcar requeria terra para os canaviais e mão de obra para tocá-los. Antes de forjar o coronelismo e seu poderio colonial, desbaratou as populações indígenas, expulsou-as rumo ao interior, ou atou-lhes grilhões aos pés, mãos e almas. Aqueles resistentes sucumbiram às doenças. Os que conseguiram sobreviver foram se miscigenando, formando nova raça.

A civilização do couro vem encontrar essa raça em segunda geração. Os costumes, todavia, permanecem ainda inalterados. Furar a caatinga necessitava de armadura, o couro serviu de matéria prima para chapéus e vestimentas. Lampião é o fruto desse cenário. Descendente do índio, selvagem que resistiu, o tapuia, unido ao couro desse que cuidava do gado, revoltado com os atropelos dos coronéis.

Se os índios tapuias foram imortalizados em relatos de cronistas franceses a serviço do governo holandês, Lampião imortalizou-se no canto daqueles que, de tão injustiçados, não acreditavam na lei do Estado, nem na justiça dos homens. A maneira como foi imortalizado é que mudou. Da prosa descritiva daqueles cronistas, agora a sextilha e o verso de sete sílabas da poesia autêntica do Nordeste.

Pensamos essa poesia, de cordel, a provável cantora de nossos antepassados pré-cabralinos. Não o foi. A saga de destruição à cultura dos nossos povos foi encharcada por imitações do modelo europeu, tanto na forma como no conteúdo. A literatura brasileira colonial foi uma extensão européia. Mesmo a chegada do Romantismo não cantou a terra como deveria. A construção poética romântica transformou nossos índios em apolos dos salões. A busca da natureza como fonte de afirmação poética foi o passo para a brasilidade, é certo. Mas o arcadismo já cantara a mesma matéria. As epopéias árcades trazem esse indígena à cena. Assim vêm Cacambo em O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. Mas é em O Guesa, de Sousândre que se esconde o verdadeiro mito cantado americano. O Brasil é incluído no mundo americano e resgata seu passado sem a mácula da cor européia. A literatura de cordel poderia, caso lhe fosse oferecida passagem, cantar esse passado. É como se a cabeça de nossa ancestralidade tivesse sido cortada com a entrada do europeu em nossa cena. Aliás, é esse o nosso mote.

Decepados nossos ancestrais, deceparam-se os nossos heróis. O destrato dedicado ao cordelismo é a mesma ação decapitadora sob a qual caíram os tapuias do Recife, Zumbi dos Palmares, Tiradentes das Gerais, Conselheiro de Canudos, Lampião do Nordeste.

Um trabalho que pense a relação entre as epopéias nacionais e a Literatura de Cordel seria o fruto dessa breve reflexão. Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido, de certa forma, ou de forma certa, infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a Literatura de Cordel resistiu, fundou sua própria poética, consagrou poetas, penetrou em todas as camadas sociais, influenciou escritores e estudiosos, transformou-se num símbolo, ícone, índice, signo e sinal de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior, Lampião, estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira identidade. Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

Seria ela aquela matéria épica primitiva, cantando os heróis nacionais. A produção cordeliana encontrando o seu herói épico, Lampião, não existe outro de tão forte identidade quanto ele, baixa os fundamentos de nossa epopéia. Ele sintetiza:

a) o Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

b) a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias; e

c) o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela Igreja, em sua certidão de batismo; pelo Estado, representado pela instituição da Polícia Militar; e é maravilhoso, épico-burlesco, herói-cômico, nas façanhas do outro lado da vida como vimos anteriormente. Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

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