O Rio São Francisco precisa continuar batendo no meio do mar

por aderaldo

Nunca mais eu havia escutado Luiz Gonzaga. Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai desaguar no São Francisco e o Rio São Francisco vai bater no meio do mar, o Rio São Francisco… mas afinal de contas que rio é esse? O Velho Chico, rio de Unidade Nacional, esse mesmo que vemos aqui à nossa frente, de águas meio esverdeadas ou meio barrentas, um olho castanho-esmeraldino, atravessado por essa ponte meio pênsil, meio sólida, caminho também de unidade. Esse mesmo rio que se despenca das Gerais, da Serra da Canastra, ali onde nada mais é do que um finíssimo nylon transparente que se anovela até Três Marias e engrossa pela Bahia até Sobradinho e vem descendo até aqui.

No último dia quatro de outubro o Velho Chico completou 504 anos de descoberto. A expedição de André Gonçalves e Americo Vespucci, em 1501, avistou sua desembocadura no dia de São Francisco de Assis e, como era de praxe, batizaram-no com o nome do despojado, humilde e revolucionário do amor santo católico. Muito antes, porém, os tupis já o haviam chamado de Opará, rio-mar. Mas essa história pertence ao tempo antigo. Meio milênio depois que é feito do rio-mar? Em que perdida memória deságua ou desaguou a fortaleza e pujança do nosso Nilo? Contradizendo a oração do Seu Padrinho Santo, o Chico só se doou e nada de bom recebeu em troca.

Três meses depois da descoberta do Rio São Francisco, a mesma expedição chega ao que se pensava fosse a desembocadura de um outro rio. D ia 1º de janeiro de 1502, uma foz enorme e o batismo Rio de Janeiro. Um engano, como mais tarde se observou, pois se tratava da Baía de Guanabara. O mar adentrava a terra, formava ilhas e criava uma das mais belas e perfeitas vistas da Terra. Subindo pelo suposto rio os portugueses se sentiram encurralados. Como a paisagem fosse bonita, clima agradável, ficaram fundeados ali. Entretanto, só em 1503 a cidade a que hoje se chama de Rio de Janeiro foi fundada. A história do Rio São Francisco e da Baía de Guanabara se unem naquele passado. Será?

Todos acompanharam no dia 18 de janeiro de 2001 o maior desastre ecológico acontecido na Baía de Guanabara. Não bastasse toda a poluição lançada todos os dias por indústrias, esgotos domésticos, refinarias de petróleo, portos e lixo em quantidade, um vazamento de óleo da ordem de 1,3 milhão dizimou 50 quilômetros de águas e manguezais. Peixes e homens, plantas e moluscos ameaçados de morte. Eu vi com meus olhos que a terra nunca há de comer, os olhos de minha alma, o que a irresponsabilidade tecnológica é capaz de operar. Quasecinco anos depois nós temos a certeza de que a Baía que antes apenas agonizava, agora morreu de vez. Mas acredito em ressurreição, sou cristão.

Em minhas mãos, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um relatório do IPEA, ligado ao Ministério do Planejamento, datado de 1972, delineava um Programa de visitas de empresários ao Vale do São Francisco e dividia a bacia do rio em áreas de aproveitamento. Uma dessas áreas era denominada Petrolina-Juazeiro. Um estudo favorável com levantamentos topográfico, industrial, demográfico, tecnológico convidava empresários a investir na região e tomava o Velho Chico como alavanca propulsora de desenvolvimento. No ano anterior vozes de alarme denunciavam a morte do rio e a formação de um deserto descendo do Ceará e penetrando os sertões de Mato Grosso do Sul, com Pantanal e tudo.

Data de 1954 as primeiras advertências. Desmatamento sem reflorestamento, causando assoreamento e entupimento do leito do rio; irrigação sem planejamento, levando à evaporação da água ou seu retorno repleto de poluentes químicos dos agrotóxicos; poucas cidades ribeirinhas têm sistema de tratamento de esgoto e jogam seus dejetos in natura no rosto do humilde Chico; a construção de barragens gigantescas sem qualquer preocupação ecológica, extraindo do companheiro Chico uma potencialidade que ele não possui; fauna e flora desrespeitadas acintosamente. Pescadores prevêem o fim do Velho Chico e eu nunca mais comi surubim.

Será que só com desastres ecológicos pesados é que se tomam providências? Será mesmo que, como diz o teólogo Leonardo Boff, o ser humano é o satã da Terra? Outro dia um amigo, voltando de Propriá, Sergipe, confessava um temor: — Acho que logo, logo atravessaremos Chiquinho a pé! Não se tomarmos as devidas precauções. Campanhas de esclarecimentos, comprometimento social, zelo pelo que dá vida. Como diz Geraldinho Azevedo, em parceria com Alceu: … vamos salvar as serras. Eu acrescento: vamos salvar o Rio. Vamos evitar que ele desemboque na Baía de Guanabara, definhado e negro.

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