O Auto de Zé Limeira, excertos

por aderaldo

1. Uma lembrança

Lembro de dois cantadores
Em peleja acelerada
Como dois troncos serrados
Vertendo seiva encarnada
Debulhando suas rimas
Com plainas, lixas e limas
Numa tarde ensangüentada

O mote deveras rico
Serviçal de vida inteira
Tratava de um cantador
Que se chamou Zé Limeira
E foi o mestre entre os mestres
Com versos nada rupestres
Em construções de primeira

Recordo até minha idade:
Perto da troca de dentes.
Olhando aquelas estátuas
Com vozes tão estridentes
Arremessando seus dotes
Como pesados lingotes
Nos ouvidos dos presentes

Não esqueci um só verso
Passados já tantos anos
Ofereço o testemunho
Bem antes que os desenganos
Da velhice traiçoeira
Armem sua ratoeira
Por dentro dos meus arcanos

2. A terra aos mortos

— No sertão, sob o sol da Borborema.
Numa terra regada a pedra e osso
O lagarto equilibra seu pescoço
Com a cauda apontando a parte extrema
O seu corpo parece um teorema
De incógnitas perdidas na paisagem
Há um corte suspenso nessa imagem
Vertical, fura o Jabre as nuvens raras.
Batizado nas águas do Espinharas
Zé Limeira parece uma visagem.

— Apesar de sertão o clima é frio
Frio e seco como soi acontecer
Nessa terra em que a vida quer nascer
E só nasce vencendo um desafio:
O verter-se em esforço no vazio
Que abomina, assustando a floração.
Dessa forma estrangula o seu pulmão
Com as garras astutas de um tridente
(a esmola na cuia do indigente)
Zé Limeira transforma pedra em pão

— Para o frio noturno e o sol diário
Indumentos que imitam passarinho
Variando da mescla para o linho
E alpercatas cruzando o pó calcáreo
(Uma orquídea vestida em um sudário;
uma túnica sobre os mandacarus)
Macambira cruzada com umbus,
Resistentes espécies da secura
Água/sal versus rocha/rapadura
Zé Limeira vencendo os urubus.

— Se o passado contasse verdadeiro
O olhar de quem olha saberia
Que há bilhões de instantes não havia
Um lugar sem brasão e sem letreiro
Sobre o qual há carcaças no terreiro
E Reis Magos são quadro empoeirado
Mas um Astro Cadente iluminado
Se aloja tal/qual um caranguejo
A suar no mormaço sertanejo
Zé Limeira é o Verbo Anunciado

— Pare o tempo, o vento, o mundo inteiro,
As espécies, os bichos, as vontades.
Pare o mal e parem as maldades
Pare o bem, o bom. Pare o luzeiro
Que alumia e que queima o juazeiro,
Pare a força dessas contradições,
Pare a regra geral das ilusões
E a caldeira que energiza tudo
Pois do alto do céu vem um entrudo
Zé Limeira puxando seus cordões!

….

3. A pedra aos homens

— O que faz essa pedra no caminho
Caminhando assim como nós todos?
Desatando os nós de suas veias
Numa crosta de sertanejos lodos?
Pedra crua, maciço monolito,
Escapando da vida em seus engodos?

— Uma rocha marrom alucinada
Carregando outras rochas no cascalho
Arrastando esculturas naturais
Num acorde por dentro de um chocalho
Um granito moldando-se nos espinhos
Metamorfoseado em espantalho

— O chão árido é lima espontânea
Aplainando e alisando a superfície
Extraindo os excessos e os reveses
E expulsando da pedra a imundície
Que as lembranças entalham em seu dorso
Espalhando destroços na planície

— Há um canto estranho e monocórdico
Retotono cantar a insistir
Em pregar as surpresas de outro canto
Invertendo o que a gente quer ouvir
Pois se fosse sair virá suar
E se fosse coar veio cair

— Armadilhas que a pedra já limada
Oferece aos incautos em seus trilhos
É a luz sobre a treva da mesmice
Extraindo qual prisma outros mil brilhos
Onde viesse falha era folia
Onde folhas viria, ao invés, filhos.

— As espadas nas vísceras antagônicas
Recortando lugares preciosos
Arranhões no relevo da retina
Estragando a visão dos belicosos
Que se prostam a seus pés desnorteados
Zé Limeira, flagelo de orgulhosos.

4. A luta aos vivos

— Cantador tem que ter tino
E o trabalhador, coragem.
Se cantoria é trabalho,
Inaugura a mestiçagem:
A poesia e o trabalho
Dentro da mesma embalagem

— Ao cantador, paramentos.
Ao trabalhador, também.
Se cantar é trabalhar
Inaugura o vai-e-vem
De vestir e despir versos
Sem precisar de ninguém

— Quando o cantar cai por dentro
Do trabalhar pra viver
E se viver já é luta
Que não se deve perder
Quem canta está trabalhando
Trabalhador passa a ser

— Do cantar para o trabalho
Migramos todos os dias
Com a viola enlaçando
O grito das agonias
E a cova estomacal
Sepultando as alegrias

— O homem-rocha vestindo
Seu canto desbravador
Traça seu mapa epopéico
Em todo lugar que for
No mais negro território
Zé Limeira planta flor

— Cuspindo barro, tijolos.
De um depósito de poeira
Que traz em sua garganta
Ardendo em brasa, caieira,
O mapa paraibano
É o mar de Zé Limeira

— Foi o caminho mostrado
norteando quem escuta
Para quem tem paladar
Sentir o gosto da fruta
Zé Limeira é o resumo:
Aos arrogantes, cicuta!

5. O invólucro e suas virtudes

— Anéis em todos os dedos
Esporões nos calcanhares
Dentes de ouro fincados
Nos ossos maxilares
Dois olhos de vaga-lume
Pele estirada em curtume
(Couraça medieval)
Lenço vermelho ao pescoço
Envolto nesse arcabouço
Zé Limeira é imortal

— Uns óculos sintetizando
Funções paradoxais
Fazendo o de perto, longe.
Do longe, o perto demais.
Telescópio e microscópio
Como as trompas de falópio
Servindo à fecundação
Ou como a válvula mitral
Misterioso portal
Do sangue, no coração.

— O ventre já guarnecido
O tórax, um compressor.
Mais de mil libras forçando
As cordas do cantador
Neurônios de energia
Suprindo a anestesia
Do outro desafiante
O olho castanho-escuro
Furando o imo do muro
Mesmo feito de diamante

— Descendo o suor na fronte
Olhos-d’água tão profusos
Enchendo o lago poético
De apetrechos confusos
Mas com qualquer maestria
Que o rumo da cantoria
Mudava e desarrumava
E as bocas dos que ouviam
Se fechavam, se abriam.
E a boca da noite amava

— Protagonizando a quebra
Do léxico preso ao sintático
Amalgamando prefixos
Fazendo o texto antiestático
Inflou o campo semântico
A partir do verso quântico
Moldou o novo repente
O fruto que os povos pedem
Roubou do Jardim do Éden
Zé Limeira é a Serpente!

6. Despedidas

Quanto aos sonhos do Homem, eu que narro,
Não me alembro de tê-los anotados.
Mas se o sonho se perde num escarro
E as lembranças sucumbem aos bocados,
Para que se alembrar do sonho alheio,
Para que martelar no aperreio?

Martelar quer dizer bater martelos.
Sextilhar, a matraca das sextilhas.
Castelar, pois seria erguer castelos.
Armadilhar, armar as armadilhas.
Zé Limeira, portanto, martelou,
Sextilhou, castelou, armadilhou!

Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.

O meu medo era o Cristo ali deitado
Com o povo a beijar seu manto santo.
Um cheiro de morte e de pecado
Sentimento de dor e de espanto.
Zé Limeira despiu a fantasia
Ao mostrar-me que tudo é heresia!

Chego ao fim do relato duvidando
Do engenho empregado à narrativa,
Pois se a pena quer pássaros voando
Toda ave quer ver a pena viva.
Fecho a tampa do poço da lembrança
E sepulto meus mortos de criança!

* * * * *

Escrevi o Auto de Zé Limeira em 2002 a pedido de Zé Guilherme, então membro da banda (ou bando) Cabruêra. Foi feita uma gravação com música de Artur Pessoa em 2004, no disco O Samba da Minha Terra. Aqui apenas alguns momentos do folheto.

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