Nem só de pão vive o homem

por aderaldo

1. Olho para trás, por sobre os ombros, e contemplo, ruminando, a carga desses últimos anos. Escrevi, certa vez, estar recolhendo as folhas de minha pequena árvore. Escrevo, agora, recolher os frutos da árvore, tantas e tantas vezes replantada, tantas e tantas vezes agredida e tantas e tantas vezes reavivada: a árvore dos meus princípios, a árvore da minha vida, minha Árvore de Esmeralda.

2. Embora a lágrima escorra-me pelo rosto, um sorriso me adorna a face e um brilho, a luz do meu Caminho, se posta meio às minhas nuvens, abre as pedras da inundação e eleva as águas do deserto. Mas o que quero gritar às águas turvas do Mar Vermelho? O que pretendo fazer com o embornal tão bem recomendado pelos chefes de minha missão? Quem me livrará dos dilemas e das bifurcações, dos medos e dos pesadelos, das serpentes e das bestas insanas, dos crocodilos habitantes de minha alma e dos malfadados anjos das minhas decepções?

3. Guiar-me, eu e meu povo, legião de antepassados no mundo espiritual, descendentes neste mundo visível, irmãos em espírito e carne e esta menina negra, minha razão e emoção, pelas veredas do sertão mais profundo, com seus esconderijos, cavernas, mandacarus, cacimbas envenenadas e rios caudalosos: eis minha tarefa. Um cajado, miopia, pés errantes, mãos atrevidas, boca senhora: minha balística.

4. Imprensado contra as rochas, esmagado pelas intempéries, não me afasto do meu alicerce. Não temo a dor (se preciso for), o ódio (se preciso for), o amor (se não for preciso), a precisão (certeira e precisa) da dor de nunca mais poder cantar, do ódio dos que não acreditam no amor, do amor em sua versão mais profunda.

5. Preciso da dor, sim, em meu caminho. Ela me ensina a não furar meus pés, nem os outros corações. Ensina-me a deixar-me furar os olhos e a humilhar-me face à humildade. É a dor que me faz dar saltos para a eternidade.

6. Preciso do ódio, sim, em minha estrada. Ele me ensina quão vil sentimento o é. Me ensina a edificar a Grande Muralha do meu coração, para barrar sua entrada e suas investidas. É o ódio dos homens que me faz ser Homem, que me faz Ser, que me Faz.

7. Preciso do amor. Preciso do Amor. Preciso do AMOR. Do amor da mulher e do seu afeto, do seu corpo, da sua fúria (malcriada fúria). Do Amor dos vivos (enquanto não existam mortos), dos seus sons e silêncios, da sua alteridade. Do AMOR de Deus, o misericordioso, o fiel, o compassivo, habitando as altas esferas, os misteriosos corações astrais (etéreos) e sua pitada, feita sopro, dando vida.

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