O decálogo

por aderaldo

Enquanto o CHU 3622 corta a Avenida Brasil, ao lado dessa mulher, sinto os arrepios provocados por cada palavra sua. O frio, amigo desses abalos, é fortalecido pela temperatura exterior. A tensão da noite mal atravessada me acompanha e meus olhos temem olhar para o lado. Os confusos pensamentos me enervam. Consigo retirar, porém, ileso, o meu decálogo, do meio destes escombros em que se transforma, a cada discussão, meu universo. Começo a lê-lo:

1. Acredito no amor. Este amor que não é apenas belo, forte e tudo suporta. Acredito no amor onde (o amor é um espaço) o lado humano pobre vem à tona, na revelação do vil e do hediondo e na superação deles todos. A minha banda podre me acompanha onde quer que eu vá. O meu amor tem que revelá-la à minha amada. Acredito, também, no amor débil, abalado e temeroso, fruto das histórias e do histórico de cada um. E cada vez mais tendo a acreditar que, assim como os ombros, o amor não suporta tudo.

2. Acredito no amor. Este amor que não se mede pelo tamanho dos presentes que recebo ou que oferto. Cuja métrica vai além do que vejo e do que sinto. O amor que briga, mas não desaquece, que entorna o caldo sem quebrar a tijela, que faz cair o pão, mas proteje a margarina, que faz dormir separado e não desarruma a cama, que pode até cancelar um toque, mas conserva o abraço.

3. Acredito no amor. Este inveterado amor das indecências. O amor dos impropérios e das loucuras. O amor que espera a amada com uma pedra na mão para arremessar contra o pára-brisa. O amor que diz transformar a vida do amado num inferno. O amor que entra numa discussão pela madrugada. O amor que fecha a casa, desliga o celular, escreve um epílogo, rasga um cartão, vai dormir no chão e ameaça ir embora.

4. Acredito no amor. Esse amor que faz o casamento. Que leva duas pessoas ao altar, ao juiz, à polícia, ao mesmo teto, embora todos digam, e a vida prove, que isso não dá certo. O amor dos enganos e dos desenganos, das ilusões e desilusões, da fé e da descrença, dos contraditórios querer e mal-querer.

5. Acredito no amor. Este amor que abdica dos cinco seguintes pontos do decálogo e oferta a lacuna para que a amada os escreva e partilhe a vida, construa a casa e pense na decoração, lave a roupa e solicite ajuda para estendê-la, faça o arroz e apregoe os males da farofinha, peça um leitinho sem estar muito quente, coma um pão com passas e zombe do passado, acredite no futuro e vá ao shopping comprar presente, queira ter filhos sem amar a gestação e o parto, vá ao dentista e procure os dentes de alho.

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