A lembrança ou O Natal é possível?

por aderaldo

Era noite de Natal e eu, exilado poeta faminto, empreendi minha pequena jornada. Não havia qualquer lugar específico para chegar. Eu procurava tão somente um onde, fosse marquise, degrau ou porta para recostar a cabeça e descansar daqueles dias fatigantes, desesperados, de solidão e medo. Naquela noite eu não tinha mais casa. Minha noite primeira na rua, meu batismo sob as estrelas.

A Cidade Maravilhosa havia me presenteado com coisas muito boas. Trabalho e guarida. Abrira seus imensos braços e abraços. Agora, entretanto, tudo se perdera, fluira, escorrera por entre meus inábeis dedos e fugira como um crocodilo amarelo pela imensidão subterrânea de seus esgotos.

Eu caminhava olhando para os lados e para trás, nunca para a frente. Ruas iluminadas, sons pelos bares, pessoas em suas casas sorrindo e se abraçando, envolvidas numa aura tênue, embalada pela emoção de uma cerveja ou um gole de espumante. Percebi olhares vivos, corpos bailando, carregados por invisíveis guindastes de ânimo. Algum namorado, encostado num carro, beijava sua amada com ternura e crianças disputavam doces em correria de inocente vida.

Um movimento acontecia comigo. Aquele caminho me conduzia de volta para dentro de mim. Observava grupos de mendigos, conversando alegres, bebendo aguardente, fumando um cigarro, partilhando sobras de algum restaurante e uma fogueira. Repartiam em latas sua comida. Bebiam do mesmo copo. Ali, na roda comensal, talvez não pensassem em suas vidas individuais, mas na vida de todos, no destino comum de todos os homens.

Resolvi ir pela areia da praia e já estava quase cansado. Não encontrara um lugar. Todos os bancos de praça estavam ocupados. A praia era um bom lugar. Aqui e acolá grupos estavam reunidos em círculo, cantando. Casais sentados lado a lado trocavam olhares e carícias. Um homem com um cão. Uma senhora com crianças e o profundo mar testemunhando a vida.

Dentro de mim fui encontrando pessoas desaparecidas. A Rua do Bode estava ali reunida em uma enorme mesa de Natal. Participei daquela primeira e única ceia interior. Era muita gente e cada um havia levado sua contribuição. Uma enorme árvore de Natal, com presentes depositados em seus pés, piscava como um imenso olho mágico. Meu primeiro dia de encontro com os pesados grilhões da dor. O mar invadiu-me os olhos. Aquele salgado sabor. Salgado saber.

Ora, ora! O amor não foi inventado por sacerdotes ou xamãs em seus transes, fraudulentos ou não. Não é criação literária reunida em alguma antologia de Natal. Moisés não nos trouxe o amor, nem Buda o revelou. Sim, porque o amor não é criação, criatura. O amor é o criador. O amor é o destino comum dos homens. É uma jornada para a cama macia. É o imutável olhar da vida.

Cada passo trocado naquela noite foi uma experiência esotérica, uma vivência exotérica, a dialética intersecção dentro/fora. Todos os Natais reúnem-se assim dentro de mim. A noite de Natal, porque o Natal é luz nas trevas. O amor é aquela estrela de Belém apontando o norte de cada um. Meu norte é além. Meu norte e meu Natal.
Reúnem-se em meu cenáculo interior todos os meus antepassados: mamãe, meus sete irmãos adormecidos, meu irmão vivo. Ali estão amigos que há muito não vejo, nem sei seus paradeiros. Ali estão inimigos fantasiosos e fantásticos. Cada pedra-de-fogo da antiga Rua do Bode e cada paralelepídedo que vi sendo colocado. Vejo ali minha primeira namorada. Meu primeiro amigo de verdade, ali. As paisagens e as aventuras. O Rio do Canto, o Engenho de Seu Juju, o Rio Pinturas e a Barragem do Pau-Ferro.

Ali, naquele canto, está o Cine Educativo Municipal e meu primeiro filme abobalhado: Esse pato vale ouro. Vejo Júlio Verne sentado, pensativo. Pedro Américo e Padre Rui, dupla inseparável. O amor é assim como uma dupla inseparável: Cristo e o Natal. O amor é cada migalha lembrada. A soma geral e a prova dos nove de todos os meus erros. O amor é a avalanche provocada pelos meus acertos. A tempestade de minhas buscas.

Lá longe, onde o amor foi aprisionado e não saiu às ruas, há muita dor. Essa verdade me faz acreditar que as verdades às vezes levam aos erros. Minha jornada prossegue. Prossegue comigo. Com minhas encruzilhadas. O Natal é a grande encruzilhada, a bifurcação, o dilema. Para um lado e para o outro: o que fazer? O amor é o Natal, a decisão, a escolha.

Escolhi sentar-me frente ao mar, numa pequena gruta. O amor é essa gruta frente ao grande mar. O Natal, aquele Natal comigo mendicante, é um mar. Espumas das ondas quebrando pertinho, o barulhinho insondável dos seres dialogantes dentro do mar. Dentro de nós, o marulhar das vozes de nossas convicções. O imutável mar. O profundíssimo mar do amor e suas desconfianças e seus ciúmes. O amor não é o monstro do mar.

O amor, como um bom escoteiro, marcou o caminho, iluminou a noite, indicou-me as boas trilhas, alertou-me para os riscos do atalho e trouxe-me a esta gruta. Aqui do lado, enquanto eu tentava descansar, uma senhora sofria toda a noite com dores de parto. Seu homem, um senhor não muito idoso, mas marcado pelo tempo de seus suores, foi sempre prestativo e carinhoso. Ainda a pouco ouvi um choro manso de recém-nascido. Como pode alguém ser tão irresponsável e dar à luz aqui entre esses montes de lixo?

Talvez seja madrugada. Olho para o horizonte e Vênus brilha sobre nossas cabeças. Já ouvi alguma movimentação e algumas pessoas, quem sabe importunadas pelo insistente choro daquele rebento, tenham vindo para reclamar suas queixas de não poderem dormir tranquilas. Esse moleque parece que mexeu com tudo ao redor. O milagre da vida, não é? O galo cantou um canto mais forte, mais gutural e arrastado. Uma vaca e suas crias mugiram em uníssono. Senti o cheiro do café.

Não posso me envolver com essa história. São estranhos, embora mendigos como agora eu sou. Mas há uma força me puxando, ou me jogando, para dar uma olhada naquele outro lá, que nem sabe que nasceu.

Meu Deus, não se parece nada com o pai e, da mãe, traz apenas a cor. Qual o futuro dessa criança? Não pode ser lá muito bom. Mas, fazer o quê? O amor é como esse menino: talvez não tenha origem, nem pedigree, seus pais terrenos não lhes fazem herdar qualquer traço genético, e por isso mesmo, inquieta os vizinhos e faz pensar.
Mas, de verdade, o que é o Natal? Será o Natal o tempo das nossas dúvidas? O covil dos nossos medos? A caverna de nossas trevas?
Ou será o Natal uma margem suspensa para todas as respostas? A mansão espetacular de nossa coragem? O acesso universal de nossas luzes?

Como o Natal, seremos nós anuais e nos renovamos e morremos e ressuscitamos? Nasceremos com Cristo ou a estrebaria dos nossos desesperos nos bastam?

E esses três Reis Magos, porque insistem em nos visitar? Presentes: insenso para purificar e perfumar, mas que, como toda a fumaça, se dissipa e exige mais fogo, mais incenso, vigília? Mirra, o que seria tal erva, se é mesmo erva e não a encontramos pelos mercados, na Pérsia ou em Caruaru? O ouro, para que queremos o ouro? Para comprar? Para guardar? Para adorar?

Esses animais teimosos continuam a nos lamber? Nossos pais velarão por nós? Afinal, nascemos para ser recenseados? O Cristo, aquele pobre Cristo, nasceu durante um recenseamento da população? E nós, a que população pertencemos neste Natal? Aos excluídos, sejam sem-terra, sem-teto, sem-sonho, sem-vergonha, sem-amor, sem-vida, cem condenados… ?

Esta janela não me parece segura. Por ela testemunhamos a morte e as muralhas do Natal. O Natal, para alguns, por trás dos muros, paredes e pisos dos shoppings. O Natal para aqueles que observam o outdoor da mortadela como substituta do peru e não poderão comprá-la.

O Natal é a solidão dos muros dessas imensas carceragens e casas de detenção? O Natal é o Parque do Flamengo, cada ponte, cada bueiro, cada pé-de-escada, barraco? O Natal será formado pelos fogos e pelas nozes desfilando em carros alegóricos e lágrimas na contra-mão da riqueza?

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