Literatura de Cordel: um ícone nordestino

por aderaldo

Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — … Mas Deus está de que lado?

Canudos, como está n”Os Sertões”, abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal em folhetos de oito páginas se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.

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