Diário das férias

por aderaldo

Janeiro, dia 6

Embarquei em um dos velhos e temidos aviões da TAM. Fui para o Nordeste: João Pessoa. Escala e conexão em Recife. A chuva caíra sobre o Rio durante toda a semana. Mas acima das nuvens escondia-se a imensidão. O profundo e bordado espaço sideral, com seus sóis, estrelas, planetas e satélites artificiais, uma estação orbital e a Lua invisivel.

Foi a primeira viagem de Luiza. Dormiu pouco e certamente não sofreu as sensações que eu sofri. Minha esposa, acostumada aos solavancos aéreos, cansada, buscava refúgio por trás dos óculos e eu brasa acesa na noite do bólide, navegando o espaço, com espaços imensos por dentro e por fora. Janelinha aberta, contei estrelas, apontei constelações e outros corpos precipitados pela estrada de nada, ou de vento, ou de nuvens, ou de breu.

Aos 10 mil metros subindo não existe esperança, só ansiedade. Nada é parâmetro para nada, entretanto ainda pude pensar na beleza acima e abaixo. Não existia ali nem céu, nem terra. Muito baixo para estar no céu e muito alto para estar na terra. Estávamos, suponho, no horizonte. E acreditei ver constelações abaixo, luzes de cidades que nem sei quais: rios de lava, estrelas-do-mar, crocodilos e polvos, desenhos luminosos e explosões.

E acreditei ver constelações acima: sagitário, o cruzeiro do sul, ursa maior, as três marias ou o cinturão de órion. É, eu estava com medo. Para onde iria correndo minha sombra naquele cavalo de eletricidade, como perguntaria Augusto. O homem fragmentado da pós-modernidade já não voa. O homem sequestrado nos bolsões periféricos da miséria urbana, também não. O homem romântico e seu fantasma teima em olhar para o lado e flagrar alguém a fitá-lo. Alguém que se solidarize com seus pensamentos.

Mas a mulher, com sua pele negra, com sua boca doce, com sua mão afável e com olhos dormitando, perde-se dentro do seu próprio vôo, de sua própria noite, de seu próprio destino. Seu coração, dentro da nave, àquela hora, pertencia a outro deus, talvez Morfeu, talvez Tupã, talvez Odin ou Iemanjá. 03:00h: bem-vindos a João Pessoa, tempo bom, temperatura amena e R$ 55,00 de taxi atá o Pouso das Águas, na praia de Cabo Branco.

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