Diário das férias, 2

por aderaldo

Janeiro, dia 7

Algumas sombras viajaram de muito longe para dentro de minha noite. Marcamos um encontro naquela cela. Instalaram-se entre nós três, na pequena cama na qual buscamos algum repouso. Se não repousa o mar, eu era o mar. Vozes e seus ecos, fantasmas e seus passos, lugares e seus encantos, os desencantos de alguns lugares, os lugares comuns. Sons e música, pessoas e aromas, cabelos e afagos, crentes e dementes, bêbados e ébrios, sóbrios e serenos, sereno e orvalho e um filete de paz e um alfinete de guerra e a linha tortuosa com as palavras escritas por um deus analfabeto, ou um alfabeto sem deus.

Analice e Bertrand, os arautos do sol e da brisa, saudaram-me como a um odisseu, repleto de cicatrizes. Naquele primeiro dia fui um ciclope caolho, os olhos resumiram-se no centro da testa, e esta refugiara-se na caverna medonha do meu sotaque inalterado. Um café perplexo, um amplexo, procurando nos pés um nexo, no coração um anexo, um desconexo dançarino de street dance, a dança dos salões. A mala azul, enorme. O mar verde, amorfo.

O caminho, a estrada, a BR, para Areia, é a via das maravilhas. As paisagens agem e ardem em eco. Quais mãos trabalharam na confecção desse origami? A planície sem fim, cada casinha perdida ao lado de um cajueiro. Estradas de terra vicinais, plantações de abacaxis, um pedaço da mata atlântica. Uma árvore de Natal trabalhada na horizontal. Barraquinhas de frutas e seus sitiantes, cabeças de gado, Café do Vento (nome poético escondendo a bifurcação para Sapé, Mari e Guarabira) e a macaxeira com carne de sol lá no Cajá.

Entrada para Juarez Távora, a rodovia tão estreita e sinuosa como a pedra de São Sebastião, rios secos, açudes petrificados nos portões milenares do brejo. Vai assim até Alagoa Grande, a cidade quente, no sopé da Serra da Borborema. Uma nuvem de gafanhotos pousou em meu corpo: cadê a Lagoa do Paó? Diluiu-se entre as alimárias ou foi sorvida pela fenda de Sumatra, num choque de placas tectônicas? A resposta cruel me foi oferecida na antiga ponte levada pelo estouro da barragem, represa de Camará. Quase dois anos sem ser reconstruída. O paradoxo da ilha em terra. Haverá inseticida para essa peste?

Come-se muita poeira no atalho para o asfalto. Nele, depois da reta por entre o canavial a brotar, a curva fechada para a encosta serpeante, subida para a Vila Real do Brejo de Areia. Um feto de alegria é um embrião de confetes. Uma pedra, uma árvore, um bambu, todos são totens dos meus verdes anos, de minhas aventuras, dos meus insucessos com as mulheres, dos meus sucessos com o fracasso. É uma armadilha atrás da outra até a entrada da Célula Mater da Inteligência paraibana, a maior das armadilhas.

Da subida, a visão medieval do Convento das Irmãs Franciscanas, suas altas paredes e suas profundas fundações. O totalitarismo cristão e a educação caminham sabiamente de mãos dadas e bocas fechadas. As pedras têm cor e cheiro de sangue, a argamassa tem peso e imagem de esperança. Areia criou-se conservadora e escravocrata, imortalizou-se como vanguardista e abolicionista, permanece perplexa e parada sem compreender o seu destino.

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