Diário das férias, 4

por aderaldo

Janeiro, dia 7, noite

A noite em Areia é medieval e nebulosa. O céu é visto em sua profundidade abismal, à noite, raras vezes. Quase sempre desce até nós a névoa, como se o bafo halitoso e fumegante de Deus nos envolvesse em seus mistérios e augúrios. Quando criança, com um velho mapa astronômico, eu tentava encontrar as constelações, como fiz de dentro do aeroplano da TAM. Meu sucesso fora sempre duvidoso, só encontrava brumas.

A noite não é tão somente o céu cintilante. É um todo, é o friozinho, é a esquina, é a praça, é a rua deserta, é algum amigo, em roda, contando piadas e fofocando sobre os erros do divino. Cortei o calçamento e as calçadas areenses, senti a boca de antigos botecos pelos quais perambulei em minha mocidade. Fiz um rosário de minhas lembranças. Procurei Dona Nazaré e Betila, Basto do Bar, o bar de Caju e de Mané Bidão. Lugares nos quais ensaiava algumas notas numa viola sem rumo.

O Bar do Buda foi o único no qual ouvi ópera ao ocaso de um sol brejeiro. O Buda, sofreu um infarto fulminante enquanto servia sarapatel a uns estudantes da Escola de Agronomia. Passei em frente ao antigo Bar Chaminé, reduto dos intelectuais, o preferido dos artistas durante os antigos festivais de arte da cidade. Hoje é uma sucursal da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais recente, o Bar Magia era o point da cidade. Era uma bar pequeno, enorme para nós leitores e subversores, boa música, todavia conservador radical, não se podia pendurar nada, fiado jamais, mesmo porque com a nossa escassez de recursos seria difícil saldar penduras.

Mas falávamos da noite e sua mística. A noite de Areia é a noite do mundo, todos os fetos dormem em paz, todos os afetos estão adormecidos e os desafetos tramam seus ardis. É a mesma noite de outras noites. O quarto da pensão de Fleuriza, onde ficamos, abria sua janela para o vale imensurável no qual o vento semeava seus uivos e adornava os corações de antigas lembranças de malassombros. A noite é boa para dormir, a noite é boa para sonhar, a noite é boa e o sol, na luta contra o nevoeiro, chega devagar, sonolento e só se firma pelas dez da manhã. A noite cobriu a cidade com um véu de esquecimento e óbito.

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