Diário das férias, 5

por aderaldo

Janeiro, dia 8, manhã

Olhei para a igreja matriz. Fechada. A missa está acontecendo no auditório do Centro Social Pio XII. Essa igreja matriz e esse centro são dois importantes marcos em minha vida. Na igreja fui iniciado na vida cristã. no conhecimento do catecismo, pelas mãos da Madre Trautelinde (nem sei se é assim que escreve). Alguém deverá lembrar dela. Alemã, vermelha, apontando o caminho das artes manuais, das artes cênicas e da língua alemã a quem se interessasse. Lá no centro paroquial vi seus slides sobre a vida de Estevão, o santo apedrejado e morto aos pés de Paulo, o apóstolo. Eram slides dramáticos da vida dos santos construtores e defensores da fé cristã. Por ela entrei na Cruzada Eucarística. Nas procissões e autos de fé íamos à frente rezando e cantando. Por ela penetrei no precioso e protegido Colégio Santa Rita e sua biblioteca, com a Irmã Frida tomando conta. Encenei alguns dramas no palco do Santa Rita, aliás minha vida era um drama.

O centro Social Pio XII foi a convergência para o saber. Sua biblioteca e seu museu, o Museu Regional, foram meu berço e meu porto mais que seguro. Todas as noites eu lá estava descobrindo José Américo de Almeida, Jorge Amado, Fernando Sabino, a literatura de cordel e a Imitação de Cristo, velhos missais, enciclopédias, dicionários, livros de história e história de livros. Apresentei-me, certa vez, menino sambudo, dançando um Mineiro Pau em seu auditório, nesse mesmo auditório, vi movimentos políticos sendo fundados, peças teatrais, seminários literários e culturais. O Centro foi pioneiro oferecendo aos jovens um Curso de Datilografia por anos seguidos. Tudo isso obra de Pe. Rui Vieira Barreira.

Pe. Rui foi um homem de fibra. Além de cuidar da matriz e ser um de seus idealizadores (patrocinou afrescos no teto e nas laterais) fundou em cada rua um centro social para a comunidade poder se encontrar e se constituir cidadã. Foi um homem atuante, político brilhante, professor univeritário, intelectual e vaidoso (mas quem não é?). Acredito e disse por muitas vezes, ter sido Pe. Rui o homem mais lúcido de Areia, mesmo depois de três derrames cerebrais, de sua esclerose, de sua falta de memória. Depois de Pe. Rui a igreja católica areense troca passos bêbados, desce todas as ladeiras e abandona a fé. Não encontrei Pe. Rui, entretanto seu braço está em toda parte.

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