Diário das férias, 5

por aderaldo

Janeiro, dia 8, manhã

Acordei com alguma inquietação. Luiza amanheceu estranha, longa viagem para a pequerrucha de dois anos. Vomitou ás 05:00h. Ficamos atônitos. Compreendemos depois de meia-hora que era cansaço e fome, estômago vazio. Depois do leite estava ela com a pilha renovado e eu aliviado. Tomamos café em Wilson da Padaria.

A antiga padaria de seu Edgar, pai de Wilson, sempre me intrigava. Havia um balcão antigo onde se lia, talvez, Bar da Noite, ou Bar da Lua. Não conversei sobre isso com ele. Conversamos sobre política. Ficamos por aí e eu voltei em busca do meu baú. Durante minha infância trabalhei na padaria de Seu Antonio Cavalcante, a Panificadora São Vicente, em cujo balcão atendia Zé Marimbondo.

A família Cavalcante sempre foi muito atenciosa comigo. Zezinho, Rui, Arimatéa, Paulo e Dona Suzana, os que me lembro. Está lá na Rua do Teatro a antiga padaria. Não sei o paradeiro dos meninos de Seu Antonio, sei da saudade que tenho do pão francês coberto com aquele farelinho de milho e das bolachas por lá produzidas: sete capas, regalia, sian, somassa, cafona, soda, jaú, delícia, biscoito charuto, tareco, bolo confeitado e um pão doce coberto com coco. Ao que aqui no sul chamam de pão sovado, na padaria de Seu Antonio era pão crioulo. A menor bolacha fabricada era uma tal de peteca e o menor biscoito era a raiva, broa de massa.

As duas principais padarias eram a São Vicente e a de Seu Edgar, a Panificadora Capricho, a qual Wilson comanda hoje, onde tomei café pingado com um sanduíche de queijo de coalho para matar a saudade dos meus verdes anos. Durante toda a semana em que fiquei em Areia acordei com o aroma do pão novinho penetrando delicada e sutilmente pelo postigo da janela, habitando o quarto, como num desenho animado de Tom e Jerry, me chamando para a armadilha das massas.

Que eu me lembre ainda haviam outras pequenas padarias. Na mesma Rua do Teatro havia a padaria de Seu Antonio de Zuza, com o padeiro Luizinho, fazendo o pão na mão, resistindo à tecnologia. E lá na Rua São Miguel, aquela que corre rente ao muro do cemitério, o Sr. Antonio Lopes instalou uma pequena panificação com Biu de Dona Maria Bernardo fabricando pão e outros artigos da panificação. Na década de 90, instalou-se uma padaria, com bar e lanchonete, no centro, frente à Igreja Matriz, onde hoje há um supermercado, entretanto essa década foi a década do meu exílio definitivo. Falar de pão em Areia é pedir a Deus para que todos tenham o pão.

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