Diário das férias, 6

por aderaldo

Janeiro, dia 8, noite

O ano de 1998 foi aquele das trevas e da imensa luz. Fui ao fundo do poço de meus dias e ao cume dos montes de minhas noites. Sofri as dores de amores e os gozos espirituais. Do fundo da caverna vi mortos à esquerda e direita. Do alto vi vivos aos saltos e solavancos imateriais. Em minha dor mais profunda encontrei guarida em homens e mulheres de braços tão quentes e corações tão grandes. Em irmãos dedicados e vigilantes. Em amigos. Se pela manhã observei o passar da procissão católica em minha vida, à noite revivi os bons momentos passados no seio de meus irmãos da Igreja Congregacional Monte da Benção, ali na rua do Sertão, em frente à Caixa Econômica. Cheguei por lá em trapos, andrajos, com falência múltipla dos órgãos e da consciência. Eu estava morto.

Aprendi coisas belas com meus amados. O hino Quão grande és tu ainda faz eco em meu espírito. Meu primeiro interlocutor foi o Irmão Ivan, presbítero. Ivan me ouvi como um santo, paciente e meigo. Ficamos amigos tão próximos, nossos corações pensavam as mesmas coisas, comungavam os mesmos anseios. Ouvíamos Mattos Nascimento em alto som, comíamos a rapadura das orações. O Irmão Dedé, ô meu Irmão, varamos noites lendo capítulos bíblicos, observando o caminho dos justos, meditando nas palavras sinceras do Eclesiastes, buscando em Paulo orientações para a vida plena.

Hoje, observo meu filho naquele púlpito, cantando os hinos que eu já cantei, buscando as mesmas coisas, o mesmo êxtase. A vida cristã é uma vida a mais. Mas, cuidado com a intolerância religiosa, com o fanatismo que semeia guerras e promove a separação. Fica-me na pele a beleza de ver meus amigos de adolescência vivendo vida reta, à procura do correto caminho e das boas ações. Surpreendo-me também conscientizando-me que, antes de Cristo, infelizmente, se vive Paulo, ao invés do cristianismo, semeia-se um paulinismo preconceituoso e vago. Não há de ser nada, entretanto, no final dos tempos subiremos unidos ao impalpável seio de Abrahão. Ou de Alá, ou Confúcio. Por que não?

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