Diário das férias, 7

por aderaldo

Janeiro, dia 9, manhã

Uma de minhas saudades mais fundas está ligada às reuniões na casa de Dona Zita. A terceira casa à direita na Rua do Bode. O reduto de Pádua, Floriano, Fátima, Chiquinho, Tuda. O fim de ano, sintonizado na Rádio Campina Grande FM, era uma convergência de boas energias e bom degustar.

Dona Zita nos deixou há um tempo, logo depois de ter falado comigo, num Natal. A casa ficou triste. Papai Noel não cumpriu o trato e atrasou-se em seus presentes. Mas a tristeza é apenas pela sua ausência física, Dona Zita preenche todos os cômodos com seus passos firmes, com seus braços fortes e sua fala certa.

Quando estávamos na sala, eu e Pádua, bebericando alguma coisa, ela preparava um daqueles pratinhos e um caldinho para acompanhar o nosso constante delírio, o nosso persistente sonho. Foi nesses encontros que escutáramos Gonzaguinha, Belchior, Ednardo, Zé Ramalho. Minhas lembranças se embaralham e escuto a voz de Fátima, a mulher mais charmosa da cidade, mãe de Camila, que vi nascer e crescer. Reencontrei-as, mãe e filha, numa conversa tão agradável como nos velhos e bons tempos.

O meu amigo Pádua não quis partir conosco. Fez bem. O mundo, esse mundo imenso, é um beco escuro repleto de armadilhas. Uma ratoeira, um mundéu, uma rede, uma grade, um labirinto. Abracei-o como a um irmão e relembramos com carinho nossa trajetória, nossos amigos em comum, nossas estripulias. A casa de Dona Zita foi minha primeira casa, meu primeiro lar. Tive lá as primeiras lições de amizade e fé!

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