Diário das férias, final, sem lápide ou epitáfio

por aderaldo

Maio, 9, fim de tarde no Rio de Janeiro

1. Como todo alcoólatra, meus planos são grandiosos, mirabolantes, coloridos. E até se desenham, têm início. E tudo fica pela metade. Abandonei o projeto do diário das férias. Eu queria retratar pormenores, pensar detalhes, apontar preciosidades escondidas. O calçamento da cidade é antigo, são pedras portuguesas e minha cabeça não suporta a solidez de tão insistentes pedradas. Sou um trôpego e tropeço, sou um íncubo na noite dos meus próprios abandonos. Por isso frustro os poucos que aqui buscam um pouco de palavras e letras e signos amontoados. Vou parar, incompetente diante da realidade, impugnado pela ficção.

2. Meu roteiro não cabe falar mal de Areia. Meu roteiro é, entretanto, uma arapuca. Falar dos meus mortos e antepassados é tarefa gostosa, tenho alegres devaneios relembrando seus rostos, seus bailados, seus discursos, suas vestimentas. O mofo da cidade, o lodo de suas ladeiras, o riso decrépito de seus casarões, o tempo imóvel no céu a pino, a roda da fortuna, girândola malfadada, a praça e o coreto: fotocromias desfocadas num preto e branco de dar dó.

3. Anteontem gritei para Ney: definitivamente Areia não tem vocação para o turismo. E aqui, ouso dizer com todo eco possível, o Festival de Artes, o sonho de minha cabisbaixa geração, é um ogro, um polvo sem ventosas, coruja sem noite, morcego que vê, cachorro louco correndo atrás dos automóveis. Areia transformou-se em um nódulo. Personalidades infames, infantes com mania de macróbios, micróbios vetustos em jantar opíparo, cujo prato principal é a paciência do povo.

4. Minha geração é o símbolo maior da orfandade. As cabeças pensantes dispensadas. As mentes impensáveis, despensadas. Lembrem-se: ouvíamos e cantávamos Chico Buarque, Tom Jobim e Elis e eles, esses três citados aí, não queriam o cálice, banhavam-se nas águas de março, repetiam nossos pais. Brigávamos entre o passado e o presente. O velho Theatro Minerva e seus administradores serviram de linha divisória. E hoje vejo claramente que tudo é passado.

5. Areia tem uma comunidade virtual no orkut. Virtual mesmo: a maioria de seus membros não vive em Areia, talvez nem tenha vivido, talvez nem seja de Areia. Não vejo os membros da cidade viva: viajam anônimos, pagam pedágio à vida, cara tarifa manter-se sempre à margem, a reboque. Não há de ser nada, depois da copa serão absorvidos em passeatas, brigas passionais, disputas eleitorais, esmolas. Não de ser nada! Uma cidade se faz com homens e homens livres. Vejo só grilhões.

6. Abandonei o diário das férias, entro na fase da expropriação, como o faz meu amigo Evo!

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