Aderaldo Luciano

cordel e outros laços

O inverossímil amor de Miguel de Valverde, capítulo único

Naquela manhã de março, a nossa nau seguia o restante da esquadra em águas tranquilas e vento normal. Havíamos saído há alguns dias de Lisboa sob festa e adeuses sonhadores. Meu peito estava trancado, fechado a sete chaves, e lá dentro absconsos sentimentos só meus.

Não era meu desejo embarcar. Meu embarque, como o de tantos outros, se deu sob severa ordem da justiça real. Nada meu ficou em terra. Meus pais desapareceram fugindo do Santo Ofício. Meu único irmão fora queimado vivo há um ano acusado de bruxaria e pacto com o demônio. Não tive mulher, filhos ou qualquer outro laço afetivo. Ninguém no porto de Lisboa acenara para mim. E, acredito mesmo, ninguém conhecia meu rosto. Meu desfigurado e triste rosto. Naquele dia toda a solidão do mundo me visitara e eu chorei. Mas, não foi só.

Anotações para uma monografia sem pé nem cabeça (haja estômago e olfato)

Um sujeito sem lacunas
Introdução a uma teoria do sujeito pós-moderno

1. O Sujeito Romântico finca sua estaca

2. O deslocamento do sujeito moderno:

a. Marx por Althusser
b. Freud e o inconsciente
c. Saussure: a língua preexiste
d. Foucault e a “genealogia do sujeito moderno”
e. O feminismo e “o pessoal é político”

Dos namorados

Na madrugada, céu com nuvens pesadas
Rio de Janeiro, Dia dos Namorados de 2002

(bem que eu poderia ter escrito isso ontem)

Nada do que vi pelas vitrinas emocionou-me como presente para a mulher ao meu lado. Nada físico, nenhum objeto. Nem o ouro dos anéis, nem o talhe na madeira de lei ou o barro de Chico Ferreira. Um presente para ela não poderia ser resgatado da matéria. De mim não poderia dar-lhe também nada, posto que tudo o que tenho é seu e até eu mesmo o sou.

Por isso não receio em gritar: — Malditos os que inventaram o dia dos namorados e não puderam abrir uma loja na qual encontrássemos a essência da felicidade, do sorriso, do abraço. A delicadeza do cuidado com o cristal. O bem-estar de se esquentar bem juntinho no frio noturno!

Os sex-shoppings trazem pedaços de nós genitais, mas nenhuma loja traz um coração, um olhar, dois braços abertos. Parece que nossas partes mais queridas estão um pouquinho abaixo da linha da cintura. Isso me deixa desesperado. Como comprar um presente que o comércio não vende (nem poderia)?

Como exprimir-me com dinheiro se o capital que me irriga é outro? Sem taxas e sem parcelamento. Sem cobranças de juros ou pendengas judiciais. O presente a comprar me frustra, leitores. O presente a comprar me oprime. O presente me nega.

Terminantemente sou um fracassado. Felizmente no meio de tudo, quase perdido, continuo fomentando o sentimento que eterniza o Homem: a esperança!

A fé inabalável (anotações para um conto)

1. Antecedentes

A igreja cristã primitiva estava dividida entre hebreus e helenistas. Estes eram os cristãos gregos, convertidos novos, que em determinado momento reclamaram maior participação na vida da comunidade. Em assembléia, assumiram o trabalho de coordenar o serviço das mesas, a eucaristia, durante os cultos e a gerência dos bens colocados em comum. Foram indicados sete helenistas, entre eles Estêvão. Esse mesmo Estêvão passa, logo depois, a participar como pregador, devido à eloquência. Sua palavra agride um setor da Sinagoga dos Libertos, judeus ex-escravos. É levantada contra ele uma série de denúncias fraudulentas. Estêvão ‘e levado ao Sinédrio, julgado, condenado e arrastado pelas ruas, nu e amarrado, para ser apedrejado nos arredores da cidade. Sua morte é assistida pelo centurião Saulo, jovem, que virá a ser o apóstolo Paulo, fundador da igreja cristã moderna.

2. Portugal, 1506

A primavera de 1506 em Portugal chegou com flores e com a peste. 130 indivíduos morrendo por dia em Lisboa. No dia 15 de abril foi organizada uma procissão de penitência. O ato penitencial deveria sair da Igreja de São Domingos para a igreja de Santo Estêvão. Nessa igreja havia uma capela chamada de Capela de Jesus, em seu altar estava exposto um receptáculo com a Hóstia de Jesus sacramentado. Grande multidão. Penumbra e alguém vê uma luz saindo por dentro do receptáculo. Imediatamente corre-se a voz de milagre e por quatro dias a crença toma toda a cidade. Até que, no domingo, alguém duvida do que vê. Arrastado para o adro o miserável é assassinado e tem seu cadáver queimado, atiçado por um frade. Dois outros frades saem as ruas com uma cruz de madeira e um crucifixo gritando “heresia!”, incitando a turba na perseguição aos cristãos novos. Rapidamente passou-se de “heresia” para “queima-os”. Nesse dia foram mortos 500 indivíduos. A carnificina segue pela segunda-feira com maior fúria. Até a terça-feira contava-se 2000 mortos. Para acabar com o levante contra os cristãos-novos o Rei D. Manuel organizou uma brigada popular compulsória formada por fidalgos. Os dois frades, Frei João Mocho e Frei Bernardo, foram presos e executados em Évora.

3. Em Córdova, Castella

Lucero foi o primeiro inquisidor de Córdova. Seu lema: “Dá-me judeu, darte-ei queimado.” Foi tão cruel e sanguinário que recebeu o apelido de Tenebrero. Seu procedimento foi de tal maneira que uma reação moral foi movida entre o bispo, o administrador e a nobreza. Lucero declarou judeus todos que estavam contra ele. Uma apelação foi feito ao Rei Filipe e Lucero foi detido. Com a morte do Rei, tudo voltou a ser como era. Com a nomeação do Cardeal Cisneros, Tenebrero foi afastado definitivamente, todos os julgados foram considerados inocentes. Lucero não sofreu nenhuma punição pois observara os preceitos inquisitoriais. Um de seus secretários, Henrique Nunes, é convidado pelo Rei de Portugal para estabelecer a Inquisição em seu território.

4. Dom João III

O Rei D. João III assume o trono em 1524. Odeia os cristãos-novos e, aconselhado por Pedro d’Alcaçova Carneiro, destaca Jorge Temudo para espioná-los. Contrata, para a mesma empreitada, Henrique Nunes, criado do Inquisidor de Córdova, Diogo Rodrigues Lucero. Depois de seguir para Évora e estabelecer-se na família dos Valverde e escrever três cartas ao Rei instruindo-o quanto ao hábitos dos investigados, citando o nome de Miguel de Valverde, patriarca da família no seio da qual encontrava-se alojado. Henrique Nunes é descoberto, perseguido e assassinado em Olivença. Seus assassinos são descobertos: Diogo Vaz de Olivença e André Dias Viana, que, depois de terem as mãos decepadas, são torturados para entregar o mandante e enforcados em praça pública. Apesar de não entregarem ninguém, devido às cartas recebidas pelo Rei, a culpa cai sobre Miguel de Valverde. Preso, confessa sob tortura ter sido o mandante, tem seus bens confiscados, e toda a família assassinada. Seu pronunciamento diante do tribunal inquisidor fecha o conto.

%d blogueiros gostam disto: