A fé inabalável (anotações para um conto)

por aderaldo

1. Antecedentes

A igreja cristã primitiva estava dividida entre hebreus e helenistas. Estes eram os cristãos gregos, convertidos novos, que em determinado momento reclamaram maior participação na vida da comunidade. Em assembléia, assumiram o trabalho de coordenar o serviço das mesas, a eucaristia, durante os cultos e a gerência dos bens colocados em comum. Foram indicados sete helenistas, entre eles Estêvão. Esse mesmo Estêvão passa, logo depois, a participar como pregador, devido à eloquência. Sua palavra agride um setor da Sinagoga dos Libertos, judeus ex-escravos. É levantada contra ele uma série de denúncias fraudulentas. Estêvão ‘e levado ao Sinédrio, julgado, condenado e arrastado pelas ruas, nu e amarrado, para ser apedrejado nos arredores da cidade. Sua morte é assistida pelo centurião Saulo, jovem, que virá a ser o apóstolo Paulo, fundador da igreja cristã moderna.

2. Portugal, 1506

A primavera de 1506 em Portugal chegou com flores e com a peste. 130 indivíduos morrendo por dia em Lisboa. No dia 15 de abril foi organizada uma procissão de penitência. O ato penitencial deveria sair da Igreja de São Domingos para a igreja de Santo Estêvão. Nessa igreja havia uma capela chamada de Capela de Jesus, em seu altar estava exposto um receptáculo com a Hóstia de Jesus sacramentado. Grande multidão. Penumbra e alguém vê uma luz saindo por dentro do receptáculo. Imediatamente corre-se a voz de milagre e por quatro dias a crença toma toda a cidade. Até que, no domingo, alguém duvida do que vê. Arrastado para o adro o miserável é assassinado e tem seu cadáver queimado, atiçado por um frade. Dois outros frades saem as ruas com uma cruz de madeira e um crucifixo gritando “heresia!”, incitando a turba na perseguição aos cristãos novos. Rapidamente passou-se de “heresia” para “queima-os”. Nesse dia foram mortos 500 indivíduos. A carnificina segue pela segunda-feira com maior fúria. Até a terça-feira contava-se 2000 mortos. Para acabar com o levante contra os cristãos-novos o Rei D. Manuel organizou uma brigada popular compulsória formada por fidalgos. Os dois frades, Frei João Mocho e Frei Bernardo, foram presos e executados em Évora.

3. Em Córdova, Castella

Lucero foi o primeiro inquisidor de Córdova. Seu lema: “Dá-me judeu, darte-ei queimado.” Foi tão cruel e sanguinário que recebeu o apelido de Tenebrero. Seu procedimento foi de tal maneira que uma reação moral foi movida entre o bispo, o administrador e a nobreza. Lucero declarou judeus todos que estavam contra ele. Uma apelação foi feito ao Rei Filipe e Lucero foi detido. Com a morte do Rei, tudo voltou a ser como era. Com a nomeação do Cardeal Cisneros, Tenebrero foi afastado definitivamente, todos os julgados foram considerados inocentes. Lucero não sofreu nenhuma punição pois observara os preceitos inquisitoriais. Um de seus secretários, Henrique Nunes, é convidado pelo Rei de Portugal para estabelecer a Inquisição em seu território.

4. Dom João III

O Rei D. João III assume o trono em 1524. Odeia os cristãos-novos e, aconselhado por Pedro d’Alcaçova Carneiro, destaca Jorge Temudo para espioná-los. Contrata, para a mesma empreitada, Henrique Nunes, criado do Inquisidor de Córdova, Diogo Rodrigues Lucero. Depois de seguir para Évora e estabelecer-se na família dos Valverde e escrever três cartas ao Rei instruindo-o quanto ao hábitos dos investigados, citando o nome de Miguel de Valverde, patriarca da família no seio da qual encontrava-se alojado. Henrique Nunes é descoberto, perseguido e assassinado em Olivença. Seus assassinos são descobertos: Diogo Vaz de Olivença e André Dias Viana, que, depois de terem as mãos decepadas, são torturados para entregar o mandante e enforcados em praça pública. Apesar de não entregarem ninguém, devido às cartas recebidas pelo Rei, a culpa cai sobre Miguel de Valverde. Preso, confessa sob tortura ter sido o mandante, tem seus bens confiscados, e toda a família assassinada. Seu pronunciamento diante do tribunal inquisidor fecha o conto.

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