Dos namorados

por aderaldo

Na madrugada, céu com nuvens pesadas
Rio de Janeiro, Dia dos Namorados de 2002

(bem que eu poderia ter escrito isso ontem)

Nada do que vi pelas vitrinas emocionou-me como presente para a mulher ao meu lado. Nada físico, nenhum objeto. Nem o ouro dos anéis, nem o talhe na madeira de lei ou o barro de Chico Ferreira. Um presente para ela não poderia ser resgatado da matéria. De mim não poderia dar-lhe também nada, posto que tudo o que tenho é seu e até eu mesmo o sou.

Por isso não receio em gritar: — Malditos os que inventaram o dia dos namorados e não puderam abrir uma loja na qual encontrássemos a essência da felicidade, do sorriso, do abraço. A delicadeza do cuidado com o cristal. O bem-estar de se esquentar bem juntinho no frio noturno!

Os sex-shoppings trazem pedaços de nós genitais, mas nenhuma loja traz um coração, um olhar, dois braços abertos. Parece que nossas partes mais queridas estão um pouquinho abaixo da linha da cintura. Isso me deixa desesperado. Como comprar um presente que o comércio não vende (nem poderia)?

Como exprimir-me com dinheiro se o capital que me irriga é outro? Sem taxas e sem parcelamento. Sem cobranças de juros ou pendengas judiciais. O presente a comprar me frustra, leitores. O presente a comprar me oprime. O presente me nega.

Terminantemente sou um fracassado. Felizmente no meio de tudo, quase perdido, continuo fomentando o sentimento que eterniza o Homem: a esperança!

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