O inverossímil amor de Miguel de Valverde, capítulo único

por aderaldo

Naquela manhã de março, a nossa nau seguia o restante da esquadra em águas tranquilas e vento normal. Havíamos saído há alguns dias de Lisboa sob festa e adeuses sonhadores. Meu peito estava trancado, fechado a sete chaves, e lá dentro absconsos sentimentos só meus.

Não era meu desejo embarcar. Meu embarque, como o de tantos outros, se deu sob severa ordem da justiça real. Nada meu ficou em terra. Meus pais desapareceram fugindo do Santo Ofício. Meu único irmão fora queimado vivo há um ano acusado de bruxaria e pacto com o demônio. Não tive mulher, filhos ou qualquer outro laço afetivo. Ninguém no porto de Lisboa acenara para mim. E, acredito mesmo, ninguém conhecia meu rosto. Meu desfigurado e triste rosto. Naquele dia toda a solidão do mundo me visitara e eu chorei. Mas, não foi só.

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