Algumas coisas descartadas de um editorial para a revista Confraria

por aderaldo

Como alguns sabem, sou editor convidado da Revista on-line Confraria. Escrevo, por vezes, o editorial. Nem sempre acerto a mão e várias horas tenho que descartar idéias. Abaixo, algumas.

1. Aconteceu o que tinha de acontecer. Lutero, quando traduziu a Bíblia para o alemão, deparou-se com um problema. O analfabetismo era total e uma cruzada de alfabetização comunitária teve de ser empreendida, senão de que adiantaria a empreitada se ninguém a iria ler?

2. Enquanto isso, nosso Brás Cubas cita Sthendal que escrevera um de seus livros para ser lido por 100 (cem) leitores. Ele, o personagem machadiano, do outro lado da morte, se contentará com 5 (cinco) e Arturo Gouveia, o contista paraibano, sentir-se-ia mimado com apenas 2 (dois), ou 1 (um).

3. Pelo viés da contramão, Charles Bukowski, depois de uma leitura de seus poemas, regada a uísque e fumo, rasgou os livros, jogou-os na platéia e vomitou a mesa, o chão e a si mesmo. Não estava sóbrio, nem pensava em leitores. O “velho safado” só pensava em mulheres e não importava seus fenótipos.

4. O narrador de O Desenho do Tapete, conto de Henry James, quis ser lido pelo próprio escritor sobre o qual escrevera no jornal O Meio, especializado em resenhas literárias e lido nas rodas de literatas e críticos. Com verdadeira obsessão procurou respaldo em cada conversa e em cada interlocutor.

5. Acontece, senhores, que a Confraria, neste um ano de aniversário, alcançou a marca de 1.000.000 (um milhão) de acessos. Nesse mundo de info-analfabetos, mundo digital em exclusão, mundo ciber-centrífugo, necessitamos bem mais do que a Bíblia de Lutero, a ironia de Brás Cubas, o vômito de Bukowsky e o cinismo de Arturo.

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