Chapeuzinho Vermelho: outra versão

por aderaldo

Foi um conto que escrevi na época da graduação. Não insistam em críticas. Não vale a pena.

Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros… e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.

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Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.

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Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.

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Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:

— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!

Alimento a resposta:

— Tô ressacado!

Encontro João Lobo. Pergunta-me:

— Tem prova hoje?

Única resposta:

— Sei lá. A professora tá por aí?

Já estava.

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