O pai de Poe, o pai de Augusto e meu pai

por aderaldo

Certa vez meu amigo Nonato Gurgel horrorizou-se ao ouvir-me dizer que ainda hoje choro a ausência de meu pai. Dizia ele que na quadragésima casa dos anos era inadmissível esse tipo de problema interior. Não pude argumentar àquela hora que chorar a ausência não equivale a se ter ou não um problema, aliás, o problema existiria caso houvesse a presença, fosse ela material ou fantasmagórica. A ausência é a lacuna e chorar a lacuna não é um ato em defesa do seu preenchimento, uma lágrima oriunda do oceano dos desesperos, uma seta, uma flecha fincando-se no estômago, atirada pelo escarcéu do que não foi. Respondo agora a Nonato, daqui do oitavo andar, nesta casa virtual cuja acolhida tem preenchido minha lacunar produção intelectual.

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Sonhei certa noite, e esta noite era treva, com um homem de sorriso leve e de mãos afáveis, de palavra doce e de terno olhar. Não foi possível. A porta da casa de número 102 da Rua São José, na cidade de Areia, no espinhaço da Serra da Borborema, nunca suportou tal simulacro. O meu sonho teria sido fomentado por alguma imagem seqüencial vista na tela espetacular do cinema da cidade. Talvez o drama da Paixão de Cristo com seus açoites e chagas abertas e um homem a tudo perdoando e abraçando até seus detratores seja o responsável por esse mal súbito descido sobre mim. Pai, porque me abandonaste?

É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à câmara nupcial, mais conhecida como camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia a dia na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais e privou-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Não sem antes tentar me espelir, tomando chás amargos para me abortar. Eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes naquele útero quente e promissor. Retorno, assim, ao início do meu relato épico.

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas…
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

– Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

Também numa madrugada, a 7 de outubro de 1849, revelou-se um problema, pela ausência. O poeta Edgar Allan Poe, de vida tão atribulada e de pena tão prolífera, descia ao fundo de seu profundíssimo poço pessoal. Abandonado pelo pai, um ator de teatro decadente, e órfão de mãe, atriz idem, fora adotado por uma família decente e próspera de Richmond. Conta sua biografia de uma infância e adolescência tranqüila. Sua entrada na vida adulta trouxe-lhe, porém, freqüentes e intermináveis atritos com o pai adotivo. Confesso que a biografia de Poe, antes de sua lavra poética, inspirou-me de modo incisivo. Os seus fracassos eram o espelho para os meus fracassos. O seu gosto pela bebida, sua vida na margem e seus descompassos eram como que uma vida pregressa que eu vivera. Ausência de seu pai e a lacuna nunca preenchida pelo pai adotivo foram uma baliza para os meus gritos.

Descobri a obra de Poe na em-poe-irada biblioteca Rodrigues de Aquino, na Rua do Sertão. Dois antigos volumes editados pela Editora Globo de Porto Alegre. Um papel marrom tão velho, se desfazendo ao atrito com meus dedos, oferecia-me O Escaravelho de Ouro. Se meus ouvintes nunca leram esse conto, recomendo humildemente sua leitura. Trata ele do que se poderia chamar de escrita criptográfica. Um antigo mapa, pertencido ao pirata Capitão Kidd, contém a indicação de onde se encontra seu tesouro enterrado. O protagonista decifra a escrita e encontra o baú repleto de ouro e jóias. Também está lá, soterrado sobre a arca, um esqueleto com o crânio afundado. O lugar do achado é um intrincado caminho por entre cipós e árvores e arbustos, numa selva virgem, fechada, escura.

Nos meus treze anos aquilo era a aventura, era o insólito, era o desafio. No segundo ano da quadragésima casa da vida aquilo é o pai adotivo de Edgar sepultado sobre seu ouro, com sua razão atacada pela pena perfuro-cortante do poeta ébrio. Está lá o esqueleto e seu crânio estúpido. Está lá, sepultado e só. Pensemos, destarte, no caminho para essa construção, para esse símbolo. Penetrar no imo dessa imagem é perfazer o caminho da linguagem. O deixar-se envolver pelos atalhos da letra, mesmo sabendo-a dança imperfeita. Poe sepulta seu ausente pai adotivo, com tudo que lhe negara: uma roupa, um pedaço de pão, um pouco de cobre, já que foram esses os senhores de tamanhas desavenças. Um de seus biógrafos diz de suas últimas palavras:

— Senhor, ajudai minha pobre alma! E assim morreu, como vivera —em grande miséria e tragicamente.

Garanto-vos, senhores, que Poe foi meu pai. Meu pai ausente, meu pai presente, meu pai morto.

A meu Pai Morto

Madrugada de treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu…

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

Os sonetos aqui lidos e revelados são as trilhas de minhas poucas telhas. São meu teto grávido de arestas, minhas paredes repletas de orelhas. São meus potes, são meus pratos. São meus copos e meus sarcófagos. Neles me embalo, neles me enrolo, neles me enredo, neles me emparedo, neles me sepulto, neles me degusto. São sonetos de Augusto. De Augusto dos Anjos, do Engenho Pau d’Arco, em Espírito Santo na Zona da Mata paraibana. Aquele cujo pai, senhor de engenho abastado, dono de reses e almas, trancafiá-lo-ia no desejo de ver seu filho vivo e forjaria um sucesso no qual um feto morto seria imortalizado ao pé de um tamarindeiro. Aquele mesmo pai que corta a árvore da serra e deixa o filho moço abraçar-se ao tronco e perecer com ele. Aquele pai de presença milenar, de tradições imutáveis, semeador de grilhões, doutor em algemas, guardião dos ferros. É o conservador radical autêntico das planícies e vales nordestinos, herdeiros de terras e amplidões.

Augusto chegou-me com muita fúria e em seus sonetos encontrei guarida. Poe foi meu pai, Augusto foi meu pai. Se aquele revelara o seu pai-esqueleto soterrado sobre o brilho do ouro, este o revelou amado em plena decomposição. Essa linguagem-fábula de Augusto declamei em voz alta pelos recantos de minha podridão, nas camas em que deitei, nos corpos nos quais me lambuzei, como uma cascavel que se enroscava.

Meus filhos ouviram-me muitas vezes vomitar versos. E ouviram de mim esta sentença: — Seja bom filho, seja bom marido e seja bom pai. Talvez essa lembrança tenha levado ao equívoco de minha entonação ao confessar a Nonato o meu choro lacunar. Talvez eu não tenha sido um bom filho, nem para Poe, nem para Augusto, nem para meu desorientado pai-molecular. Talvez eu não tenha sido, nem seja, um bom marido, meio às oscilações de meus sentimentos. Talvez eu não seja um bom pai. Mas a palavra “bom” sofre tantas cintilações e a palavra “pai” carrega tantas anomalias que tudo não passe de um breve sonho, de um breve desfazer-se, desmoronar-se, putrefazer-se assistido pelo tempo, esse, sim, pai e padrasto, senhor e servo, poeta e escultor, por isso

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!…

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!…

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

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