Aderaldo Luciano

cordel e outros laços

O coração da madeira

1. Tocar a alma da terra
Sentir o pulso de tudo
Ouvir os sons inaudíveis
ver no caminho o escudo
do signo de Salomão,
os pés e o falo de Adão,
O fruto da macieira
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira

2. Sulcar a tez, superfície,
com traços tortos ao inverso
do que se vê refletido
no espelho, cristal anverso.
Com o sangue da própria mão
lambuçar a criação
soprar-lhe vida, videira,
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira!

3. No coração da madeira
vi sulcos formando gente
uma vasta cabeleira
sendo alinhada num pente
Uma mão tocando as cordas
outra desenhando bordas
um homem com seu chapéu
Um jacaré muito bravo
e um menino que era escravo
de sua pipa, no céu!

4. Quando perdi a visão
pude passear meus dedos
no coração da madeira
para saber seus segredos
como o corpo da amada
senti a curva marcada
montes,vales, pulsação
chorei um choro baixinho
como um menino sozinho
sem pai, nem mãe, nem irmão!

5. Perguntei para mim mesmo
quem trabalhou desse jeito
O coração da madeira
para deixá-lo perfeito
a mesma fotografia
que na minha vida eu via
estava ali retratada
até o olho incisivo
que me fazia cativo
Lá na imagem gravada!

6. A madeira não dobrou-se
aos meus caprichos de artista
seu centro todo encrespou-se
nem veio, filão ou pista.
Não encontrei dentro dela
Uma minúscula janela
para o sol da inspiração.
Fugiu-me, assim, de bobeira
O coração da madeira
da palma de minha mão!

7. O véu do templo em pedaços
E o céu chorando sua dor
A tarde com seus mormaços
e o sangue com seu odor
Três espectros contra o fundo
de púrpura num tom profundo:
As cores da sexta-feira!
Olhando paralisado
Vi Cristo crucificado
No coração da madeira!

8. Aviões estão no solo
os vôos já cancelados
No saguão procuro um colo
todos estão ocupados
Olhei para o celular
Que não quer mais trabalhar
Por falta de bateria
Vou talhar esta bobeira
No coração da madeira
Pra me lembrar deste dia!

9. Alguém me disse que a Terra
está desiquilibrada
que os rios estão em guerra
que a mata foi derrotada
que o céu se abre em buracos
que o mar invadirá nacos
de firmeza para os pés.
Na procissão domingueira
o coração da madeira
seduzirá os fiéis!

10. E aqui no chão da cidade
aos pés do Cristo incrustado
há algo de fealdade
circundando o Corcovado
O morro entrou pelo mato
os verbos fizeram um trato
de longe ouviram seus ecos
conluiando as alianças
esquartejando crianças
como se fossem bonecos

11. E o que dizer dos amores
que a vida nos legou?
As frutas com seus odores?
o que o vento soçobrou?
o que nunca foi escrito?
a nudez? um gesto? um grito?
e um tesouro enterrado?
O coração da madeira
foi amigo de primeira
Nas dores do meu passado!

12. Os lábios de Iracema,
Irene preta no céu,
Retirante Severino,
Leandro com seu cordel,
Mulheres de Jorge Amado,
Quixote aprisionado
na lâmpada de Aladim.
A literatura inteira
No coração da madeira
macia como um pudim!

13. Esse cheiro de café
com pão de queijo quentinho
não tem sabor de mulher
nem gosto de seu carinho
mas entra como uma faca
como se fosse uma estaca
cortando a pessoa inteira
No interior das Gerais
somente aqui que se faz
no coração da madeira!

14. (Aquele cheiro do cedro
condiz com o peso da cor)
De avermelhado me medro
no mar rugindo em furor:
O casco de minha nau
procura nas ondas vau
por onde possa passar.
Só há passagem certeira
no coração da madeira
que comecei a entalhar.

15. Os sulcos de minha vida
têm se tornado mais planos.
Ficarão mais rente ao solo
com a passagem dos anos.
E quando chegar a hora
em que eu precise ir embora
para o outro lado do muro,
haverá coisa certeira:
O coração da madeira
será meu porto seguro!

Discussão sobre cordel

A seguir reescrevo discussões que tive com poetas cordelistas sobre Literatura de Cordel. Qualquer discordância é só postar seu comentário. A leitura tem que ser feita de trás para frente a partir do tópico Temas do Cordel, para não se perder o fio da meada. Mas pode ser feita aleatoriamente, pois cada tópico tem vida própria.

Mais uma vez cordel, Lampião mais uma vez

1. Em nenhum recanto do Nordeste brasileiro vimos ou ouvimos alguém chamar cordão de cordel. Não, não existem cordéis por lá. Acreditamos mesmo que isso seja extensivo ao Brasil. A palavra cordel só se apresenta naquela literatura editada em folhetos de oito ou dezesseis páginas, raramente de trinta e duas, papel jornal, com uma xilogravura na capa, vendida em bancas pelo país afora, uma Literatura de Cordel, que muitos avaliam ter origem na Península Ibérica e que tenha se transportado para o Brasil. Defendo que a nomenclatura carece de conserto e de concerto. Precisa de revisão.

2. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, reinou por vinte anos nos sertões nordestinos. Foi tema de cinema, de histórias-em-quadrinhos, de música popular, da literatura regional nordestina. Sua indumentária é símbolo de Nordeste. Aquele chapéu de Luiz Gonzaga teve como matriz o chapéu do cangaceiro. Os trios de forró, nos bailes, e as bandas de pífanos se vestiam, antes de serem descobertos pelo capital, como os cabras de Lampião. O Imperador do Sertão não temia emboscada, conhecia os lajedos e as locas, paramentava-se para o combate, enclausurava-se nos desertos quando necessário, rumava sobre cidades quando decidido. Foi a grande descoberta daquela literatura popular em verso, editada em folhetos. Foi a síntese da problemática social do Nordeste e herdeiro dos seus mais remotos habitantes. Era um bicho na guerra, um tapuia portando mosquetões, preciosos e precisos punhais.

3. Os índios do litoral nordestino falavam o nheengatu, a língua boa. Os do interior, do sertão, eram donos da língua travada. Os tapuias, nômades e hostis, bravios, bárbaros, aliaram-se aos holandeses, lutaram contra os portugueses e desenvolveram uma arte completa de matar. Cortavam cabeças de inimigos e as dependuravam em suas cabanas, executavam seus prisioneiros a bordoadas e depois os comiam, num banquete sacro. Sua religião era um complexo sistema no qual feiticeiros incorporavam espíritos e entidades das matas. Viviam sempre em pé de guerra, não eram gregários e dominaram o sertão até o Levante dos Bárbaros em 1688 e seu completo extermínio, por volta de 1696, mortos de doença adquirida do homem branco. Foram dizimados, mas não sem antes deglutirem considerável número de inimigos que, quando os viam pintados hediondamente para o confronto, sentiam a alma lhes fugir.

4. Esses três elementos conjuram-se no Nordeste. Hoje querem mais do que o exotismo. Exigem olhares mais comprometidos e engajados. A chamada Literatura de Cordel pede urgente enquadramento dentro do todo literário brasileiro. Um enquadramento que justifique a sua importância na formação da nação e identidade nordestina. Que deixe de ser abordada apenas em eventos sazonais, passe aos manuais de história da literatura brasileira, esteja presente nos livros didáticos. Requer respeito, por ser um ícone indelével de um povo, porta-voz infalível de uma região.

5. Essa literatura, no encontro com Lampião, emancipou-se das novelas medievais e fundou sua poética, envolvendo-se em um ciclo épico determinante do seu valor. Lampião, a síntese, a mais perfeita encarnação do nosso mito primordial, herói épico lembrado e relembrado, vivo em cada nordestino. Esses três elementos, portanto, são a nossa averiguação, formando um todo, ou seja: Lampião, herdeiro tapuia, cantado na Literatura de Cordel.

6. Elegemos três pilares para refletir:

a) A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de alguns povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.

b) O Romantismo marcou o início da brasilidade em nossa literatura e nela a ressurreição do índio. Um índio literário europeizado, é verdade, mas capaz de promover o aparecimento de uma literatura de conteúdo nacional. É em fins dessa escola literária que aparece no Nordeste a Literatura de Cordel. Iniciando com temas mágicos e religiosos, a Literatura de Cordel canta os mesmos heróis da Península Ibérica: Rolando, Carlos Magno e os doze pares de França, João de Calais, a influência árabe das Mil e Uma Noites, amor e desventuras entre casais de um “reino distante”. Na busca de uma identidade, passa a cantar heróis nacionais, entre os quais escolhemos Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para analisar, nos folhetos que lhe são dedicados, a aparição do herói épico e sua posterior influência sobre a formação de uma identidade brasileira.

c) Lampião, o homem e a lenda, herdeiro natural dos índios tapuias do sertão nordestino. Um herói-síntese, reinando entre os costumes tapuias e os costumes do bando de seus cangaceiros. Lampião épico: o herói degolado no reino dos mortos, entre Céu, Inferno e Purgatório. Cordel: literatura degolada das academias, adormecida no limbo. Tapuias: povo degolado pela sífilis européia nos seiscentos.

Continuação

Não é cantoria, pois esta é a celebração, o momento, a festa, obrigatoriamente regida pelo som das violas seguindo um cerimonial peculiar. Os poetas têm que correr por várias categorias da cantoria que aqui, no seco solo desse ecran, se tornam sem sentido, pois a melodia lhes será roubada, a pronúncia sequestrada, o canto suprimido e a platéia iludida. Por fim, não é glosa, porque essa também é oral, espontânea, momentânea, efêmera. Diferindo-se da cantoria pela ausência de instrumentos musicais que a conduzida e elegendo um número maior de participantes que não só um glosador. A glosa não se passa para a disputa, mas para a exibição. Não há contenda, mas aplausos.

Continua o trinado

A poesia exigirá coisas que talvez, agora, não estejamos delas senhores. Se é poesia ou não, o tempo revelará. Só digo uma coisa, que, inclusive, já disse. O que fazemos aqui nem é cordel, tampouco repente, nem cantoria, nem glosa. Não é cordel porque o traço fundamental do cordel é a narrativa, uma história, que terá começo, meio e fim. O cordel não é reflexivo, não se passa para reflexões subjetivas, exceto no caso do perfil de personagens. Se não tem história, não é cordel. Pode até ser poesia, mas não cordel! O repente, primeiro, não é escrito, se for escrito não é repente, mesmo escrevendo ao correr da pena, pois se assim o fosse, James Joyce seria repentista. O repente requer um tempo de resposta instantâneo, imediato. Coisa que aqui jamais acontecerá, pois obrigatoriamente teremos de ler o verso do anterior e armar estratégias de defesa. No repente a defesa se faz enquanto o outro pronuncia seu verso. A pena refaz o seu verso, a fala gaguejará, e aí veremos quem é cantador!

Poético e não-poético

Há o poético e o não poético. Entretanto não posso sobrepor um ao outro. Na Literatura tanto a prosa como a poesia têm seu valor. E há mesmo a prosa poética e a poética da prosa. Entretanto em se falando de arte há alguns aspectos fundamentais para a distinção. A emoção é um ótimo termômetro, mas pode ofuscar determinados elementos. Assim prefiro olhar a tradição e a ruptura, ambas elencando e autorizando-nos a distinguir o poético do blá-blá-blá. A literatura de cordel não necessita da poesia, já que é uma narrativa, mas sem essa, parecerá vazia, mesmo não estando!

O erudito e o popular, na veia

Primeiro: essa divisão entre erudito e popular é uma falácia. Não existe. Na mesma seara: elogiar o popular em detrimento do erudito é um equívoco. Vejamos: o poeta mais popular do Brasil, de quem todo mundo sabe um verso, nem os eruditos, a academia, souberam onde colocá-lo: Augusto dos Anjos. Terá poeta com linguagem mais erudita e tão querido pelo povo? Olha o verso que todo mundo sabe, seja erudito ou popular:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Enquanto isso há poetas populares cuja construção poética excede tudo o que os eruditos ditam. Observemos Silvino Pirauá, poeta paraibano nascido no século 19:

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores
Ministros e senadores,
e mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
de uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais.
Comandantes, Marechais,
e tudo vem a ser nada.

Augusto e Silvino são dois poetas magníficos, nem tudo que escreveram, entretanto, são obras perfeitas. É simples: o bom cozinheiro, às vezes, erra no sal. Não deixa de ser cozinheiro. Seguindo a receita com muita cautela e observação e bom senso qualquer pessoa reproduz o prato do maior chef de cozinha. Qualquer Poeta pode fazer cordel. Infelizmente nem todo cordelista é poeta.

Há muito cordel de construção poeticamente duvidosa. Assim como há poetas eruditos que apenas fazem versos. Porque há uma distância considerável entre Poema e Poesia. Para arquitetar versos há a receita. Para a poesia, não. Tenho tentado incluir o cordel no cerne da Literatura brasileira da seguinte forma: há duas formas de poesia: a Poesia Lírica e a Poesia Épica. A poesia lírica é subjetiva, o poema geralmente é curto, serve a reflexão das coisas da vida, desde as mais profundas até as mais cotidianas. Drummond:

Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração

Quintana:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão… Eu passarinho!

José Laurentino:

25 de janêro,
da capitá do istado,
Cumpadi Mané Cazuza
Cuma você tem passado?

Não importa se é erudita ou popular: é Lírica. A poesia épica tem outra inspiração. Aristóteles foi o primeiro a apresentar, 300 anos antes de Cristo, essas questões que estamos discutindo aqui. Ele diz que o poeta se distingue do historiador pois enquanto esse escreve sobre os fatos acontecidos, aquele (o poeta) escreve sobre como tudo poderia ter sido diferente. É aqui que entra a Poesia Épica. O único lugar no qual o poeta e o historiador se mesclam.

A Poesia épica será sempre fiel à História. Seus poemas são longos e contam fatos acontecidos. Entram aí clássicos da literatura universal: Os Lusíadas, de Camões; A Divina Comédia, de Dante; Latinoamérica, de Marcus Accioly; Odisséia, de Homero; Eneida, de Virgílio. A característica é que o poeta junta à realidade, a História, o fantástico, o maravilhoso. Dessa forma Vasco da Gama encontra Adamastor e várias sereias e é regido pelos deuses do Olimpo. O poeta Vírgílio, segundo Dante, faz uma viagem pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ulisses é aprisionado numa ilha por sereias sedutoras. Mas tem que ser poeta para escrever uma epopéia. Tem que ser poeta para ser ser épico. Muitos tentaram, ficaram na forma, faltou-lhes a arte. Ora, o cordel se insere nesse espectro da poesia Épica. São poemas longos que contam uma história, juntando realidade e fantasia, essa é sua maior produção. Muitos tentaram ser cordelistas, ficaram no Cordel: repito, faltou-lhes a arte.

A discussão continua

Quanto a ABLC não posso afirmar que não seja um órgão sério. Porém é cópia da ABL, inclusive reproduzindo os mesmos males. Já vi cordelista criticar o fato de o Dr. Ivo Pitanguy ser da Academia Brasileira de Letras. Entretanto está faltando poeta cordelista nos quadros da ABLC. Defendo o que já disse: o poeta de cordel deveria se candidatar à ABL, onde se poderá com a mesma seriedade incluir definitivamente o Cordel como fundador da literatura brasileira mais original. Quanto as academias municipais e estaduais são cópias do mesmo jeito, reproduzindo também, os mesmos equívocos.

Agora, quanto a Patativa, aí é unanimidade. Não há poeta maior. Entretanto é humano, logo, também exposto ao engano. Se formos olhar com os olhos dele o poema do compadre que reproduzi acima ele diria que não acha graça. Está lá no poema Aos Poetas Clássicos, que abre O Cante lá que eu Canto Cá. referindo-se ao poema sem rimas:

Se o dotô me perguntá
Se verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como um corpo sem arma
E o coração sem amô.

Convenhamos que não é bem assim, concorda, compadre? Por outro lado, admitindo a resignação, atenuada pelo orgulho de ser poeta de cordel, Patativa realmente dá-nos uma lição quando diz na apresentação do mesmo livro, em sua Autobiografia:

“Não tenho tendência política. Sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes, talvez, da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia.”

No mais quero reiterar a importância dessas discussões. Para mim são valiosíssimas porque tenho a oportunidade grandiosa de mudar de opinião e até de me retratar e reconhecer meus equívocos, tão frequentes, mas, acredito, que perdoáveis.

Ainda as diferenças popular e erudito

Não disse que não se venda o cordel em barbante. Vende-se. E vende-se bem. Mas essa não é a tradição, compadre. O que vi e ouvi meus avós contarem é que sempre fora em tabuleiros. Tabuleiros como se fossem malas e ali, na parte de cima, na tampa, os folhetos dispostos, para todo mundo ver a capa, e na base, dividida em quadrados ou retângulos, outros folhetos espalhados para o manuseio dos compradores. O compadre deve saber que nas feiras do interior o vendedor de cordel não lia o cordel, ele os cantava, ainda trago aqui comigo várias dessas melodias. Cantava uma estrofe dramática e chamava a atençao dos ouvintes. Em determinado momento, já tido, hipnotizado todo mundo, ele dizia que quem quisesse saber o resto era só comprar o “romance”.

A minha rixa contra a denominação popular, compadre, é vê-la sendo utilizada apenas para as camadas menos favorecidas. Se o povo de um país é a reunião de todos os indivíduos não importando a sua classe, então por que popular, referindo-se à produção intelectual, refere-se apenas ao que faz por experiência? Sivuca, o sanfoneiro, se encontraria em qual lugar, então? Agora, gostar de ser popular é opção. Mas veja bem: outro dia, o compadre postou aqui o seguinte poema:

Quase Poesia.

(Compadre Lemos)

Eu, quando escrevo este verso,
não sou poeta,
sou quase.

Meu verso, quando o escrevo,
não é poesia,
é metade.

Poesia, toda, completa,
é quando se encontram – e se casam –
o meu e o teu sentimentos.

Escrevendo, construo a ponte.
Lendo, tu passas por ela.
Poesia… somos nós dois!…

Pergunto: é erudito ou popular?

A resposta vai alterar em alguma coisa a maestria de seu verso? Claro que não. Nem por isso o compadre deixará de optar por ser conhecido como poeta popular. Mas quando alguma crítico, e existem muitos, disser que é um poema escrito por um poeta popular, essa afirmação virá cheia de preconceito. É contra isso que grito.

Detesto o epíteto “poeta popular”

Amo jaca, a fruta. Dura e mole. Madura e algumas vezes “de vez”. O doce. O caroço cozido. Amo jaca, adoro. Até esteticamente gosto de olhar, de bater assim com o dedo, para ouvi-la “inchada”. Mas não posso mais comê-la. Me faz mal. Não consigo fazer a digestão. Ela fica lá no estômago por dois dias. E o médico disse: — Não coma mais! Parei de comer, mas não passei a odiá-la. Assim é com a poesia de cordel: adoro, entretando o nome me faz mal. Convivo com ele, aceito pois está consagrado. Sua origem me entristece.

Certa vez, compadre, fui expulso por essas questões, na minha juventude, do Teatro Minerva, a casa que eu amava, lá na minha cidade. Garanto que não me senti menosprezado, mas garanto que naquele dia fui discriminado, fui ofendido, menosprezado, como indivíduo, cidadão e ser humano.

Compadre se não houvesse essas coisas, se essas coisas não fossem tão latentes, tão presentes, não existiriam as leis para proteger os mais fracos, os idosos, os doentes, as crianças. Acredito que realmente, em algumas vezes, nós, por problemas interiores, desligamos a auto-estima e embarcamos na auto-depreciação. Aqui, na nossa discussão, o caso é político-social. De uma classe dominante determinando o caminho das outras, dominadas. A elite letrada sempre fez e desfez. Aliás, ler e escrever foram artigos de luxo há menos de vinte anos no Brasil.

A atitude de se auto-denominar “Poeta de Cordel” é assumir a causa cordelista. Continuarei defendendo a causa do cordel, como estudioso, pois até agora, ainda não escrevi o meu cordel inicial. Quando o senhor assume com orgulho o fato e a denominação, lá dentro, essa atitude está assentada sobre a resistência. Aqui no Rio serei sempre o “paraíba”. Foi horrível escutar um militar me encostar no muro: “— Mãos na cabeça, paraíba!” E depois falar para o outro: “— O paraíba quer ser doutor!” Tenho muito orgulho de ser paraibano, mas detesto ser o “paraíba”.

Porque não gosto do termo Literatura de Cordel

1. Meu velho e bom e compadre Lemos, primeiro, recebi o folheto do Patativa via Valdir Oliveira, já o tinha lido no e-book, mas sou um chinês apaixonado pela folha de papel impressa, filho de Gutemberg. Está um primor, o seu trabalho e o acabamento gráfico da Canoa, espero que venham outros. Agora, respondendo a mincê: nunca vi folhetos sendo vendido como roupa colocada no varal, com pegador (vou apostar que o senhor também não!). Isso é básico, mas o termo Literatura de Cordel, que Deus tenha misericórdia de quem o criou, é pejorativo. Uma vingança da ignorância acadêmica contra o manancial poético de quem nunca estudou. Não se pode qualificar a Literatura pelo lugar no qual (aqui supostamente) ela é vendida. Se assim o fôsse teríamos nas Bienais por aí afora Literatura de Stand, Literatura de Feira de Livro, Literatura de Estante de Livraria, Literatura de Beco, de Barraca. Não, não é assim. Alguém, e eu ainda vou descobrir quem foi, para deixar bem marcado que aquela poesia não era feita por algum bilac, mas por um “zé ninguém” do povo. Isso me corrói. Um dos gêneros literários é a poesia (lírica ou épica). Aristóteles pegou a literatura grega e fez a divisão, não se importando com quem fazia, entrou tudo na classificação dele. Daí quando se fala Literatura de Cordel estirpa-se o termo POESIA (que como muitos pensam, inclusive alguns poetas de cordel, seria superior à prosa). Assim, para o sujeito que a rotulou, não é Poesia e quando é vem o novo rótulo Poesia Popular, criando, pejorativamente, nova partição, apartamento. Há alguma diferença entre a poesia de Patativa e a de Casimiro de Abreu? Se há é pela superioridade poética do Patativa. Então por que a poesia dele é popular? Porque causa inveja no acadêmico a causa de um homem sem estudo ser o maior poeta brasileiro. Como reconhecimento, mas com o pé atrás, convidam-no para homenagens. Mas Patativa por ser “popular” jamais seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Quem? Um poeta de cordel? Jamais. Por isso minha ojeriza ao apartamento, ao termo.

2. Sou contra, não engulo, e só o pronuncio pedindo licença quarenta vezes aos meus ancestrais. Chega de preconceito e se não der para mudar o nome, já que os apelidos que a gente mais odeia são aqueles que se perpetuam, colocarei sempre um asterisco para explicar o embrião preconceituoso dessa aberração social. Vou contar dois casos conhecidos que devem sempre ser lembrados: por ocasião da semana de arte moderna (que Deus também tenha misericórdia dos que ali se envolveram) resolveram vir ao Rio buscar um autor cuja lira é formidável: Lima Barreto. O que se sabe é Lima era um lunático, vivia ali pela Lapa, pela Praça Tiradentes, bebendo e contando histórias, sem um tostão no bolso. Quando Mario de Andrade o viu caído e todo sujo na calçada, voltou às pressa para São Paulo, com medo do monstro. E o Lima escreveu o Triste Fim de Policarpo Quaresma. O outro caso é o de Cruz e Souza que não foi eleito para a Academia de Letras, mesmo sendo um “negro de alma branca”. Claro que surgirão sempre os defensores, os conscientes. Para mim é apartheid. Por isso também não aceito muito a criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um clone. Os cordelistas devem se candidatar à ABL, fazer o estardalhaço, mostrar que um cordelista é POETA, ESCRITOR, vive de seu ofício, como um OURIVES. Criando a ABLC aceito a apartação, sou carneiro, morro em silêncio. NÃO! Desculpem o tom apaixonado. Sou passional, mas meus pés estão no chão!

Temas do Cordel

Às vezes, acho que há uma resistência dos poetas cordelistas ao debate, ao estudo, à averiguação de elementos básicos da literatura de cordel. Militar no cordel não é só desenvolver motes e glosas, é uma confissão, uma profissão de fé. Talvez por isso haja tanto equívoco e tanta rasura no rascunho cordélico. Este tópico é de fundamental importância para o conhecimento do embrião cordeliano. Diz respeito ao início oral desse gênero. Tenho discordado do parentesco fraternal entre cordel e oralidade. Dizer que o cordel teve raiz na poética dos cantadores (na oralidade), ao meu ver, embarca num equívoco de averiguação. A sextilha do cordel não é a sextilha da cantoria. Ao contrário: a sextilha do cordel é que deu origem à sextilha no repente. É um caminho inverso ao que aconteceu naturalmente em outros gêneros. Como sabemos a cantoria era, na origem, cantada em quadras. Em algum momento passou a sextilhas, influenciada, isso sim, pelo papel da sextilha cordélica. A sextilha, escrita, aparece já nas canções medievais e nos seiscentos, com Camões e outros. No Brasil, desde Anchieta que a sextilha escrita se faz presente. No romantismo, em 1848, Gonçalves Dias solidifica de vez a sextilha na literatura brasileira com as Sextilhas do Frei Antão. Considerando que a Literatura de Cordel (nome que me é indeglutível) apareceu no final do séc. XIX, portanto na vigência romântica, entendo provável a sua raiz erudita, trazendo como prova os primeiros “romances” (de romântico) para os folhetos.

%d blogueiros gostam disto: