Ainda as diferenças popular e erudito

por aderaldo

Não disse que não se venda o cordel em barbante. Vende-se. E vende-se bem. Mas essa não é a tradição, compadre. O que vi e ouvi meus avós contarem é que sempre fora em tabuleiros. Tabuleiros como se fossem malas e ali, na parte de cima, na tampa, os folhetos dispostos, para todo mundo ver a capa, e na base, dividida em quadrados ou retângulos, outros folhetos espalhados para o manuseio dos compradores. O compadre deve saber que nas feiras do interior o vendedor de cordel não lia o cordel, ele os cantava, ainda trago aqui comigo várias dessas melodias. Cantava uma estrofe dramática e chamava a atençao dos ouvintes. Em determinado momento, já tido, hipnotizado todo mundo, ele dizia que quem quisesse saber o resto era só comprar o “romance”.

A minha rixa contra a denominação popular, compadre, é vê-la sendo utilizada apenas para as camadas menos favorecidas. Se o povo de um país é a reunião de todos os indivíduos não importando a sua classe, então por que popular, referindo-se à produção intelectual, refere-se apenas ao que faz por experiência? Sivuca, o sanfoneiro, se encontraria em qual lugar, então? Agora, gostar de ser popular é opção. Mas veja bem: outro dia, o compadre postou aqui o seguinte poema:

Quase Poesia.

(Compadre Lemos)

Eu, quando escrevo este verso,
não sou poeta,
sou quase.

Meu verso, quando o escrevo,
não é poesia,
é metade.

Poesia, toda, completa,
é quando se encontram – e se casam –
o meu e o teu sentimentos.

Escrevendo, construo a ponte.
Lendo, tu passas por ela.
Poesia… somos nós dois!…

Pergunto: é erudito ou popular?

A resposta vai alterar em alguma coisa a maestria de seu verso? Claro que não. Nem por isso o compadre deixará de optar por ser conhecido como poeta popular. Mas quando alguma crítico, e existem muitos, disser que é um poema escrito por um poeta popular, essa afirmação virá cheia de preconceito. É contra isso que grito.

Anúncios