Detesto o epíteto “poeta popular”

por aderaldo

Amo jaca, a fruta. Dura e mole. Madura e algumas vezes “de vez”. O doce. O caroço cozido. Amo jaca, adoro. Até esteticamente gosto de olhar, de bater assim com o dedo, para ouvi-la “inchada”. Mas não posso mais comê-la. Me faz mal. Não consigo fazer a digestão. Ela fica lá no estômago por dois dias. E o médico disse: — Não coma mais! Parei de comer, mas não passei a odiá-la. Assim é com a poesia de cordel: adoro, entretando o nome me faz mal. Convivo com ele, aceito pois está consagrado. Sua origem me entristece.

Certa vez, compadre, fui expulso por essas questões, na minha juventude, do Teatro Minerva, a casa que eu amava, lá na minha cidade. Garanto que não me senti menosprezado, mas garanto que naquele dia fui discriminado, fui ofendido, menosprezado, como indivíduo, cidadão e ser humano.

Compadre se não houvesse essas coisas, se essas coisas não fossem tão latentes, tão presentes, não existiriam as leis para proteger os mais fracos, os idosos, os doentes, as crianças. Acredito que realmente, em algumas vezes, nós, por problemas interiores, desligamos a auto-estima e embarcamos na auto-depreciação. Aqui, na nossa discussão, o caso é político-social. De uma classe dominante determinando o caminho das outras, dominadas. A elite letrada sempre fez e desfez. Aliás, ler e escrever foram artigos de luxo há menos de vinte anos no Brasil.

A atitude de se auto-denominar “Poeta de Cordel” é assumir a causa cordelista. Continuarei defendendo a causa do cordel, como estudioso, pois até agora, ainda não escrevi o meu cordel inicial. Quando o senhor assume com orgulho o fato e a denominação, lá dentro, essa atitude está assentada sobre a resistência. Aqui no Rio serei sempre o “paraíba”. Foi horrível escutar um militar me encostar no muro: “— Mãos na cabeça, paraíba!” E depois falar para o outro: “— O paraíba quer ser doutor!” Tenho muito orgulho de ser paraibano, mas detesto ser o “paraíba”.

Anúncios