O coração da madeira

por aderaldo

1. Tocar a alma da terra
Sentir o pulso de tudo
Ouvir os sons inaudíveis
ver no caminho o escudo
do signo de Salomão,
os pés e o falo de Adão,
O fruto da macieira
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira

2. Sulcar a tez, superfície,
com traços tortos ao inverso
do que se vê refletido
no espelho, cristal anverso.
Com o sangue da própria mão
lambuçar a criação
soprar-lhe vida, videira,
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira!

3. No coração da madeira
vi sulcos formando gente
uma vasta cabeleira
sendo alinhada num pente
Uma mão tocando as cordas
outra desenhando bordas
um homem com seu chapéu
Um jacaré muito bravo
e um menino que era escravo
de sua pipa, no céu!

4. Quando perdi a visão
pude passear meus dedos
no coração da madeira
para saber seus segredos
como o corpo da amada
senti a curva marcada
montes,vales, pulsação
chorei um choro baixinho
como um menino sozinho
sem pai, nem mãe, nem irmão!

5. Perguntei para mim mesmo
quem trabalhou desse jeito
O coração da madeira
para deixá-lo perfeito
a mesma fotografia
que na minha vida eu via
estava ali retratada
até o olho incisivo
que me fazia cativo
Lá na imagem gravada!

6. A madeira não dobrou-se
aos meus caprichos de artista
seu centro todo encrespou-se
nem veio, filão ou pista.
Não encontrei dentro dela
Uma minúscula janela
para o sol da inspiração.
Fugiu-me, assim, de bobeira
O coração da madeira
da palma de minha mão!

7. O véu do templo em pedaços
E o céu chorando sua dor
A tarde com seus mormaços
e o sangue com seu odor
Três espectros contra o fundo
de púrpura num tom profundo:
As cores da sexta-feira!
Olhando paralisado
Vi Cristo crucificado
No coração da madeira!

8. Aviões estão no solo
os vôos já cancelados
No saguão procuro um colo
todos estão ocupados
Olhei para o celular
Que não quer mais trabalhar
Por falta de bateria
Vou talhar esta bobeira
No coração da madeira
Pra me lembrar deste dia!

9. Alguém me disse que a Terra
está desiquilibrada
que os rios estão em guerra
que a mata foi derrotada
que o céu se abre em buracos
que o mar invadirá nacos
de firmeza para os pés.
Na procissão domingueira
o coração da madeira
seduzirá os fiéis!

10. E aqui no chão da cidade
aos pés do Cristo incrustado
há algo de fealdade
circundando o Corcovado
O morro entrou pelo mato
os verbos fizeram um trato
de longe ouviram seus ecos
conluiando as alianças
esquartejando crianças
como se fossem bonecos

11. E o que dizer dos amores
que a vida nos legou?
As frutas com seus odores?
o que o vento soçobrou?
o que nunca foi escrito?
a nudez? um gesto? um grito?
e um tesouro enterrado?
O coração da madeira
foi amigo de primeira
Nas dores do meu passado!

12. Os lábios de Iracema,
Irene preta no céu,
Retirante Severino,
Leandro com seu cordel,
Mulheres de Jorge Amado,
Quixote aprisionado
na lâmpada de Aladim.
A literatura inteira
No coração da madeira
macia como um pudim!

13. Esse cheiro de café
com pão de queijo quentinho
não tem sabor de mulher
nem gosto de seu carinho
mas entra como uma faca
como se fosse uma estaca
cortando a pessoa inteira
No interior das Gerais
somente aqui que se faz
no coração da madeira!

14. (Aquele cheiro do cedro
condiz com o peso da cor)
De avermelhado me medro
no mar rugindo em furor:
O casco de minha nau
procura nas ondas vau
por onde possa passar.
Só há passagem certeira
no coração da madeira
que comecei a entalhar.

15. Os sulcos de minha vida
têm se tornado mais planos.
Ficarão mais rente ao solo
com a passagem dos anos.
E quando chegar a hora
em que eu precise ir embora
para o outro lado do muro,
haverá coisa certeira:
O coração da madeira
será meu porto seguro!

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