O erudito e o popular, na veia

por aderaldo

Primeiro: essa divisão entre erudito e popular é uma falácia. Não existe. Na mesma seara: elogiar o popular em detrimento do erudito é um equívoco. Vejamos: o poeta mais popular do Brasil, de quem todo mundo sabe um verso, nem os eruditos, a academia, souberam onde colocá-lo: Augusto dos Anjos. Terá poeta com linguagem mais erudita e tão querido pelo povo? Olha o verso que todo mundo sabe, seja erudito ou popular:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Enquanto isso há poetas populares cuja construção poética excede tudo o que os eruditos ditam. Observemos Silvino Pirauá, poeta paraibano nascido no século 19:

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores
Ministros e senadores,
e mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
de uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais.
Comandantes, Marechais,
e tudo vem a ser nada.

Augusto e Silvino são dois poetas magníficos, nem tudo que escreveram, entretanto, são obras perfeitas. É simples: o bom cozinheiro, às vezes, erra no sal. Não deixa de ser cozinheiro. Seguindo a receita com muita cautela e observação e bom senso qualquer pessoa reproduz o prato do maior chef de cozinha. Qualquer Poeta pode fazer cordel. Infelizmente nem todo cordelista é poeta.

Há muito cordel de construção poeticamente duvidosa. Assim como há poetas eruditos que apenas fazem versos. Porque há uma distância considerável entre Poema e Poesia. Para arquitetar versos há a receita. Para a poesia, não. Tenho tentado incluir o cordel no cerne da Literatura brasileira da seguinte forma: há duas formas de poesia: a Poesia Lírica e a Poesia Épica. A poesia lírica é subjetiva, o poema geralmente é curto, serve a reflexão das coisas da vida, desde as mais profundas até as mais cotidianas. Drummond:

Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração

Quintana:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão… Eu passarinho!

José Laurentino:

25 de janêro,
da capitá do istado,
Cumpadi Mané Cazuza
Cuma você tem passado?

Não importa se é erudita ou popular: é Lírica. A poesia épica tem outra inspiração. Aristóteles foi o primeiro a apresentar, 300 anos antes de Cristo, essas questões que estamos discutindo aqui. Ele diz que o poeta se distingue do historiador pois enquanto esse escreve sobre os fatos acontecidos, aquele (o poeta) escreve sobre como tudo poderia ter sido diferente. É aqui que entra a Poesia Épica. O único lugar no qual o poeta e o historiador se mesclam.

A Poesia épica será sempre fiel à História. Seus poemas são longos e contam fatos acontecidos. Entram aí clássicos da literatura universal: Os Lusíadas, de Camões; A Divina Comédia, de Dante; Latinoamérica, de Marcus Accioly; Odisséia, de Homero; Eneida, de Virgílio. A característica é que o poeta junta à realidade, a História, o fantástico, o maravilhoso. Dessa forma Vasco da Gama encontra Adamastor e várias sereias e é regido pelos deuses do Olimpo. O poeta Vírgílio, segundo Dante, faz uma viagem pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ulisses é aprisionado numa ilha por sereias sedutoras. Mas tem que ser poeta para escrever uma epopéia. Tem que ser poeta para ser ser épico. Muitos tentaram, ficaram na forma, faltou-lhes a arte. Ora, o cordel se insere nesse espectro da poesia Épica. São poemas longos que contam uma história, juntando realidade e fantasia, essa é sua maior produção. Muitos tentaram ser cordelistas, ficaram no Cordel: repito, faltou-lhes a arte.

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