Porque não gosto do termo Literatura de Cordel

por aderaldo

1. Meu velho e bom e compadre Lemos, primeiro, recebi o folheto do Patativa via Valdir Oliveira, já o tinha lido no e-book, mas sou um chinês apaixonado pela folha de papel impressa, filho de Gutemberg. Está um primor, o seu trabalho e o acabamento gráfico da Canoa, espero que venham outros. Agora, respondendo a mincê: nunca vi folhetos sendo vendido como roupa colocada no varal, com pegador (vou apostar que o senhor também não!). Isso é básico, mas o termo Literatura de Cordel, que Deus tenha misericórdia de quem o criou, é pejorativo. Uma vingança da ignorância acadêmica contra o manancial poético de quem nunca estudou. Não se pode qualificar a Literatura pelo lugar no qual (aqui supostamente) ela é vendida. Se assim o fôsse teríamos nas Bienais por aí afora Literatura de Stand, Literatura de Feira de Livro, Literatura de Estante de Livraria, Literatura de Beco, de Barraca. Não, não é assim. Alguém, e eu ainda vou descobrir quem foi, para deixar bem marcado que aquela poesia não era feita por algum bilac, mas por um “zé ninguém” do povo. Isso me corrói. Um dos gêneros literários é a poesia (lírica ou épica). Aristóteles pegou a literatura grega e fez a divisão, não se importando com quem fazia, entrou tudo na classificação dele. Daí quando se fala Literatura de Cordel estirpa-se o termo POESIA (que como muitos pensam, inclusive alguns poetas de cordel, seria superior à prosa). Assim, para o sujeito que a rotulou, não é Poesia e quando é vem o novo rótulo Poesia Popular, criando, pejorativamente, nova partição, apartamento. Há alguma diferença entre a poesia de Patativa e a de Casimiro de Abreu? Se há é pela superioridade poética do Patativa. Então por que a poesia dele é popular? Porque causa inveja no acadêmico a causa de um homem sem estudo ser o maior poeta brasileiro. Como reconhecimento, mas com o pé atrás, convidam-no para homenagens. Mas Patativa por ser “popular” jamais seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Quem? Um poeta de cordel? Jamais. Por isso minha ojeriza ao apartamento, ao termo.

2. Sou contra, não engulo, e só o pronuncio pedindo licença quarenta vezes aos meus ancestrais. Chega de preconceito e se não der para mudar o nome, já que os apelidos que a gente mais odeia são aqueles que se perpetuam, colocarei sempre um asterisco para explicar o embrião preconceituoso dessa aberração social. Vou contar dois casos conhecidos que devem sempre ser lembrados: por ocasião da semana de arte moderna (que Deus também tenha misericórdia dos que ali se envolveram) resolveram vir ao Rio buscar um autor cuja lira é formidável: Lima Barreto. O que se sabe é Lima era um lunático, vivia ali pela Lapa, pela Praça Tiradentes, bebendo e contando histórias, sem um tostão no bolso. Quando Mario de Andrade o viu caído e todo sujo na calçada, voltou às pressa para São Paulo, com medo do monstro. E o Lima escreveu o Triste Fim de Policarpo Quaresma. O outro caso é o de Cruz e Souza que não foi eleito para a Academia de Letras, mesmo sendo um “negro de alma branca”. Claro que surgirão sempre os defensores, os conscientes. Para mim é apartheid. Por isso também não aceito muito a criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um clone. Os cordelistas devem se candidatar à ABL, fazer o estardalhaço, mostrar que um cordelista é POETA, ESCRITOR, vive de seu ofício, como um OURIVES. Criando a ABLC aceito a apartação, sou carneiro, morro em silêncio. NÃO! Desculpem o tom apaixonado. Sou passional, mas meus pés estão no chão!

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