Algumas pegadas sobre rima e métrica

por aderaldo

Ao poeta cabe poetar, com rima ou sem rima, pé quebrado, verso mudo. Mas no cordel tem que obedecer regras. Ao conjunto dessas regras dá-se o nome de Poética e é conferido pela tradição. A tradição, essa que foi firmada desde Leandro Gomes de Barros, requer um pouco de observação. Mas não basta observar. Quanto às obras escritas para nortear os que buscam resolver questões de métrica e rima:

1. Teoria do Texto, volume 2, de Salvatore D’Onofrio, editado pela Ática, tratando de toda teoria da lírica, inclusive as rimas;
2. Gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra em seu Capítulo 22, sobre versificação.
3. Vaqueiros e Cantadores, de Luís da Câmara Cascudo;
4. Cantadores, de Leonardo Mota.

Em Celso Cunha e Lindley Cintra

Rima perfeita e rima imperfeita

1. A rima é uma coincidência de sons, não de letras. Por exemplo, há RIMA SOANTE PERFEITA nestes versos de Alphonsus de Guimaraens:

Céu puro que o sol trouxe
Claro de norte a sul,
O teu olhar é doce,
Negro assim, qual se fosse
Inteiramente azul.

tanto entre sul e azul, como entre as formas trouxe, doce e fosse, que apresentam a mesma terminação grafada de três maneiras diferentes.

2. Perfeita é também a rima de “tem” com “mãe” nestes versos de Fernando Pessoa:

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino de sua mãe.”

porque no falar lisboeta estas palavras soam normamelmente “tãe” e “mãe”.

Vejamos que coisa engraçada: jamais aqui no Brasil alguém rimaria “tem” com “mãe”, certo? Seguindo o raciocínio de Celso Cunha teríamos uma rima perfeita também entre CÉU, CORDEL, PAPEL, CHAPÉU,TEO, MEL, etc, já que há coincidência de terminações sonoras para nós que somos do nordeste, norte, sudeste, centro-oeste, muito embora em alguns lugares do sul se pronuncie a consoante “l” no final das palavras.

Fui procurar em Augusto dos Anjos algo semelhante e encontrei em seu poema OS DOENTES o seguinte verso

Feriam-me o nervo óptico e a retina
Aponevroses e tendões de Aquiles,
Restos repugnantíssimos de bílis,
Vômitos impregnados de ptialina.

Ora, em alguns lugares seria impossível rimar “Aquiles” com “bílis”. No Rio, onde vivo há a tendência de se pronunciar o “e” como “ê”, logo a impossibilidade da rima soante perfeita. Mas Augusto, legítimo representante do falar nordestino faz equivaler o “e” a “i”, construindo assim a rima com perfeita semelhança sonora.

No mesmo Augusto em AS CISMAS DO DESTINO

Um dia comparado com com um milênio
Seja, pois, o teu último Evangelho…
É a evolução do novo para o velho
E do homogêneo para o heterogêneo.

Rimar “milênio” com “heterogêneo” daria uma dor de cabeça em alguns poetas. Felizmente, no falar de Augusto, os sons se equivalem. Graças a Deus e seus representantes, os poetas!

A elisão é um instrumento que o poeta adota ou não, dependendo apenas da ênfase que ele queira atribuir à palavra. É a antiga licença poética: uma carteirinha que o poeta tem e que, com ela, pode criar mil possibilidades para o verso, inclusive esta, acentuando a última sílaba:

Que deixa firme a ALMÁ.

Pode parecer estranho, entretanto, para fechar o verso em seus sete pés, pode-se apelar para esse subterfúgio. Exemplo, apresento dois. O primeiro refere-se a música Kriptônia, de Zé Ramalho, poeta paraibano que bebe nas nossas águas cordeliais, no verso em que ele diz:

… Um asteróide pequeno que todos chamam de TERRÁ (aqui se referindo a Terra).

O outro é o contrário do que apresentei. Ao invés de acentuar a última sílaba para fechar em sete, antecipa-se o acento para a penúltima e evitar o excesso de versos. É assim que faz Zé Limeira numa décima já consagrada:

Saíram lá de Belém
Cristo e Maria José,
Passaro por Nazaré,
Foro pra Betelelém…
Chupô cana num engém,
Pediu arrancho num brejo,
De noite armuçou um tejo
Lá perto de Piancó,
na sexta-feira malhó
Foi que Judas traiu JÉSUS.

O poeta pronuncia antecipando a acentuação de JESUS para JÉSUS tão somente para antecipar a rima e fechar os sete pés do verso. Em suma é a mesma figura que faz PARA transformar-se em PRA, ESTAVA em TAVA, IZABEL em ZABÉ. E assim vai! É arretado!

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