O fictício escritor Achille Droit no Brasil

por aderaldo

Move-se este artigo pela alvissareira notícia de que finalmente alguém no Brasil aceitou publicar Achille Droit. Venho trabalhando na tradução de suas obras há 30 anos. O desconhecimento, por aqui, de sua vasta e complexa escritura é uma afronta. Ninguém o sabe, ninguém o viu, ninguém o leu. Nem os doutos viajantes embrenhados no seio da Europa, às expensas do CNPq e da CAPES, deram notícia do marginal de St. Etienne. Marginal premiado, diga-se. Droit ganhou o prêmio Balzac de 1994 e o Napoleón, em 1995. Em 1996 teve seu nome rejeitado na lista de indicados ao Nobel pelo governo francês. Resultado: processou o governo por racismo, se auto-denominou negro e culpou o estado pela onda de “má literatura” produzida no país há 20 anos, citando o fato do mesmo governo ter concedido a comenda de Cavaleiro das Artes e das Letras a Paulo Coelho. Recusou o OULIPO (odiava Georges Perec) e inimizou-se com Italo Calvino, por causa de suas Fábulas Italianas, acusando-as de invencionices. Em 1998, publicou um vasto comentário sobre a literatura na França, matéria paga, no Le Monde e selou seu destino à margem. Agora, alguém vai publicá-lo no Brasil. Não a obra completa, mas a sua famosa trilogia.

Nascido em 1945 na cidade de St. Etienne, onde vive, no coração da França, pertence a uma família de dois troncos, um italiano, talvez daí o seu primeiro nome, Achille, e outro gaulês, de onde o Droit. A infância, segundo ele, foi passada na pequena vila de Saint Just-Saint Rambert, em casa de um tio-avô chamado Bernard, com grandes necessidades, devido ao pós-guerra. O fato é que em 68 está em Paris marchando com as esperanças e em 70 será encontrado no interior do nordeste brasileiro. Interessado pela saga dos cangaceiros, é o primeiro pesquisador internacional a perfazer o caminho de Virgulino Ferreira, o Lampião. Dessas pesquisas resultaram dois livros-chaves na literatura de Droit: Quasímodo, de 73, e A biblioteca básica do capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, de 76, livro que funda a sua trilogia autobiográfica, composta pelos outros O inverossímil amor de Miguel de Valverde, de 76, e O fracasso essencial do desconhecido escritor A. D. Não é preciso dizer que essas iniciais do título são a do próprio autor. Claro que há algo de irônico nessa atitude. Durante toda a vida, Droit reitera não ser escritor. Quanto a desconhecido, pelo menos na Europa, não é bem assim. Suas obras foram traduzidas para os países da Comunidade Européia. Em relação ao fracasso, esse é um engodo. Droit vive do que escreve.

Os detalhes de sua personalidade ou as nuanças de sua biografia não devem ser o fulcro de nosso texto. Quero ressaltar, entretanto, o fato de Droit ter vivido no Brasil praticamente incógnito. Não alardeou nem chamou para si os holofotes. Tão somente manteve-se fiel ao roteiro de suas pesquisas vasculhando o Nordeste. Há traços de suas passagens em Juazeiro do Norte, no Ceará, em Propriá, Sergipe, em Triunfo de Pernambuco e na outra Triunfo, no alto sertão paraibano. Foi ele quem conseguiu elementos para resolver o caso de Banjamin Abrahão, o libanês que conseguiu filmar e fotografar o bando de Lampião. Essas andanças definitivamente ofereceram subsídios para a escritura de Quasímodo. Mas não só. A leitura de Euclides, de Os Sertões, foi a outra baliza. A descrição do sertanejo e da terra vermelha do sertão foram confrontadas com a experiência do francês. Vejamos as semelhanças. Diz Euclides, logo depois do célebre “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, mote mais que revirado na cultura nacional:

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos.

Essa descrição euclidiana encontrará ecos em outros. Mário de Andrade, ao fazer o seu tour, em 28, pelo interior do Nordeste repete a mesma observação. Diz ele lá no seu Turista “carinhas fuinhas, bonitinhas, desagradáveis…” Voltemos a Droit. Como dizia, Euclides foi um de seus livros de cabeceira. O próprio título já é intersectivo. É assim que ele abre seu romance:

Encontrei Quasímodo cambaleante, bêbado. Se torto era, mais ainda sua sombra. Estendida no pó vermelho, tez enrugada do sertão perene, entranha mais entrada no corpo da caatinga, escrevia, aquela sombra aguda, a imagem do sineiro malfadado, oriundo da Paris das Luzes, agora figura alegórica da Paraíba das trevas. Era quarta-feira. Semana Santa. E ele estava lá, amaldiçoado, implorando esmolas e misericórdia, a caridade do mundo.

Diz Baudelaire, citado por Boisdeffre em suas Metamorfosis de la Literatura III, que a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, ou seja, intensamente exclusivista, mas que abra, ao mesmo tempo, os mais amplos horizontes. Por isso, não nego a influência euclidiana à pena de Droit, entretanto não deixarei de perceber a beleza do primeiro parágrafo de seu romance. Não é só belo, é construído na perfeição da palavra bem colocada, como diria Bilac, limada, com responsável bom senso, sem exagero. Essa mesma acuidade vê-se, encontra-se em sua trilogia. Para isso valeu-se, com disciplina e organização, de roteiros de pesquisa para a confecção do seu estilo e de seus temas e cenários. Influenciado por Arnold Vierniak Flemming, costumava fazer anotações matemáticas que nem sempre seguia à risca, flutuava, sem se afastar muito do tema. As anotações para O inverossímil amor de Miguel de Valverde, incluídas nos anexos da tradução nos mostram a prova.

Infelizmente essas anotações não esclarecem algumas questões intertextuais. O romance inicia com a partida de Valverde, degredado para as Índias na esquadra de Cabral, mais precisamente embarcado na nau de Vasco de Ataíde, aquela que no 13º dia perdeu-se no oceano.

Sendo um romance que pertence a uma trilogia autobiográfica de Droit, compreender-se-á as metáforas da solidão e da Inquisição. É a vida do escritor desfilando. Os dois primeiros romances dessa trilogia estão ligados profundamente ao Brasil. Aconteceu com o autor, talvez em maior escala, o mesmo acontecido a Juan Valera, o adido cultural espanhol no Brasil entre 1851 e 1853. Valera escreveu dois romances cujos cenários são a capital federal da época, o Rio de Janeiro. Chegou mesmo a escrever uma pequena história da poesia no Brasil. O autor de Pepita Jimenez ficaria desconhecido durante um século. Ultimamente, devido ao trabalho de espanistas sérios, a sua obra tem sido estudada e vasculhada com intenso fervor. O nosso escritor, Droit, talvez tenha que esperar um pouco mais, mesmo o Brasil sendo tema principal de seus mais influentes trabalhos. O primeiro A biblioteca básica do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião traz em sua introdução um estudo comparativo de nossa literatura. Nesse estudo, dentro de um romance histórico e jornalístico, há por exemplo uma comparação entre dois clássicos de nossa literatura: Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos, para explicar a presença dos mesmos dentro do corpus lido pelos cabras de Lampião.

Droit conhecia a literatura brasileira. Sabia como e onde encontrá-la. Esse volume da trilogia, o de Lampião, nasceu de uma observação lida por ele no mesmo turista acidental de Mario de Andrade a respeito dos cangaceiros:

Mas parece que Lampião tinha lá no grupo dele uns malandros cheios de curso escolar… De primeiro ele não era o que é, não. Os tais é que, cangacismo praticado, voltavam para roubar, estuprar o Cão! Lampeão… Lampeão era brasileiro da República (não sou monarquista) e se acostumou.

Essa observação de que o grupo de Lampião continha elementos estudados, levou-o, Droit, a especular sobre qual literatura seria lida entre eles. E o que encontrou só lendo o volume primeiro da trilogia. O certo é que Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos estavam na estante dos cabras.

Quanto ao último volume dessa obra tríptica, é o mais intimista, memorialista até. É narrada um pouco de sua infância e seu encontro com as primeiras letras e que tipo de literatura forjou sua personalidade e seu estilo. Narrada em primeira pessoa é uma descrição sensível do mundo em ruínas, do aprendizado. Ressalte-se o trecho em que apresenta ao leitor seu primeiro mestre, como o fez José de Alencar em seu Como e porque sou romancista, traçando um perfil do Sr. Januário Mateus Ferreira, diretor do Colégio de Instrução Elementar, onde o fundador de nosso romance fizera seus primeiros contatos com a cultura acadêmica. O primeiro mestre de Droit é o italiano Americo Perazzo, professor de grego e latim, conhecedor das Belas Letras. No capítulo referente a ele apresenta:

Seu Américo me adotou. Abriu sua casa, sua biblioteca, seu coração. Ensinou-me o Latim. Nunca levantou-me a voz. Olhava-me como um objeto de estimação, muitas vezes como objeto de estudo. A cada avanço meu naquela língua estranha, aos meus olhos ele me parecia mais moço. Ensinou-me para que eu lesse o breviário. Pouco a pouco foi me introduzindo na liturgia católica. Salve Regina, mater misericordiae. Quis ensinar-me o grego, meus ancestrais em ebulição se insurgiram. Foi calamitoso. Se no latim fui além do ego sum qui sum, no grego não passei de alfa e, se fui além, fui analfa. O mestre não insistiu. Compreendendo que minha idade deveria ser tratada com mais leveza apresentou-me Fedro e Esopo, adorei. Antevendo o rebelde em que eu me transformaria deixou-me à vontade e passou a atender-me quando de minhas dúvidas em algumas dificuldades. E eu descobri o Decamerão. Bocaccio me falava mal da Igreja e tirava a roupa de padres e freiras. Me falava de sexo. E eu não o larguei mais. O mestre me entendeu e eu compreendi que do sagrado para o profano basta virar a página.

Esse pequeno parágrafo elucidará o maior mistério de sua trilogia e, mesmo, o porquê de ela nunca ter aportado por aqui. O misterioso Droit cumprira uma tarefa que no século XX, aquele século das Vanguardas, se tornaria quase impossível de ser lida. Este motivo, este porquê, que vou revelar agora é, também, o responsável pelo longo tempo que levei para traduzi-lo. Tarefa árdua, mas agradável e recompensadora pois, agora, finalmente alguém vai publicar Achille Droit no Brasil. Ah, sim! O motivo: a trilogia autobiográfica de Droit foi escrita em latim e publicada com dinheiro do seu próprio bolso, já que todos os editores a rejeitaram.

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