Acrósticos

por aderaldo

O acróstico é a assinatura do poeta cordelista. Sua marca contra a adulteração do seu trabalho. Mas essa assinatura em acróstico revela um fato comum no meio literário: a apropriação de obra de autor. Mesmo com leis protegendo os direitos autorais, ainda hoje é fato renitente. Transportou-se para o cordel aquilo normal na pintura: a assinatura como atestado de veracidade da autoria. . Minha contribuição:

De A Praga de Gafanhoto no Sertão Paraibano, de Caetano Cosme da Silva:

C om fé em Deus verdadeiro
A pessoa que viver
É feliz em todo canto
T ambém tem muito prazer
A lcança toda vitória
N ão tirando da memória
O Deus de tanto poder.

De A Malassombrada Peleja de Francisco Sales com o “Negro Visão”:

F aço ponto meus amigos
S obre a tremenda porfia
A todos peço desculpas
L endo esta poesia
E spero de cada um
S ua boa garantia

De A Verdadeira História de Lampião e Maria Bonita, de Manuel Pereira Sobrinho:

P rovou que quis viver bem
E stimado e sendo amado
R evoltou-se com razão
E mbora sem resultado
I mplantou o terrorismo
R olou no véu do abismo
A té o último intrigado

É necessário observar que a confecção do acróstico requer estudo e reflexão. Os versos devem estar inseridos na narrativa. É a conclusão do trabalho, como uma máxima, a moral da história. Entretando o arranjo, e isso talvez já funcione como licensa poética, gostaria até que outros comentassem, interfere na estrutura geral do Cordel. Os exemplos que coloquei servem a essa observação. Vejam o acróstico do Caetano: o E vem acentuado, atrapalhando a pronúncia do seu nome. O caso do Francisco Sales, o segundo exemplo, no texto original vem assim F., com esse ponto abreviando o Francisco. No terceiro exemplo, acontece a seguinte curiosidade: o cordel é todo sextilhado. Percebendo que Pereira tem sete letras, o autor muda a estrutura das estrofes para sete versos. A constatação fica mais rica ao se perceber que essa mudança procede nas últimas sete estrofes do poema. Ou seja: um caso premeditado, um índice semiótico para o estudioso. Acho essas coisas fascinantes. E é isso que faz a riqueza do Cordel.

Vejamos como termina o folheto A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e seu Julgamento, o autor saberemos pela assinatura:

Assim Getúlio foi salvo
Do seu gesto delirante
E breve virá à Terra
Como um chefe triunfante
Para ajudar o Poeta
RODOLFO C. CAVALCANTE.

Ora, não querendo interferir na estrutura geral do cordel, Rodolfo Coelho Cavalcante preferiu assinar-se no último verso com o nome completo, abreviando, artificialmente o Coelho.

Agora, um outro caso encontrado em minhas pesquisas no folheto Morte, Saudade e Lembrança de Severino Ferreira, de Zé Saldanha:

S obre a dívida da morte
A nossa vida é quem paga,
U m bom amigo da gente
D aqueles que a gente afaga,
A morte dura e malvada
D á-lhe uma boa bordoada
E le depressa se apaga

D e Severino Ferreira
É muito forte a lembrança
S ua voz bonita e mansa
E stilo bom de primeira
V erso limpo sem zonzeira
E ra o poeta da gente
R ima rica e competente
I mproviso belo e risonho
N o mundo lindo de um sonho
O nde Deus está presente

Nesse exemplo Zé Saldanha abdica de sua assinatura e, numa atitude de reforço do sentimento de amizade, constrói como que um epitáfio, comum nas terras do Nordeste: Saudade de Fulano, no caso Severino Ferreira, o poeta.

O poeta Marcus Accioly não é cordelista, é acadêmico, professor de literatura e um amante da poética do cordel. Depois de Nordestinados, uma de suas obras nas quais a poética dos cantadores aparece com profundidade e didatismo, apresentou um volume chamado Xilogravura, com ilustrações grandiosas xilogravadas num formato grande. Pois bem Accioly escreveu também Guriatã, um cordel para criança, ganhador de vários prêmios, ilustrado por Dila. No final ele assina:

M as se o amigo buscado
A contecer ter partido,
R esta trazer o passado
C omo o presente perdido,
U rge ele vivo ou encantado
S empre na bola-de-vidro.

A migo leitor-menino
C ontei o aquário do sonho
C antando a sorte-destino
I mprovisado no estranho
O vo de bola-de-vidro:
L ivro em redoma de livro,
Y ara em redondo banho.

Como disse, Accioly não é cordelista e não se sente preso à tradição da rima perfeita, soante, no cordel. Por isso dá-se ao direito de furar a rima como bem percebemos nas estrofes.

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