As releituras no cordel e suas condenações

por aderaldo

As releituras têm seu valor, entretanto cabe-nos pensar em algo. Tenho defendido a inserção definitiva do cordel como parte crucial da formação da literatura brasileira e ele mesmo como literatura. O cordel é a base do Romance Social de 30 e do Movimento Armorial. Está no cerne de toda a música popular brasileira e do Cinema Novo. Revolução da comunicação social de massa e definidor da identidade cultural nordestina. Sendo assim fica-me impossível acreditar em releitura de clássicos do cordel. E explico: já se ouviu falar em releitura do Dom Quixote, de Os Lusíadas, de Iracema, de Macunaíma? Desconheço. A explicação é que é impossível reler a literatura (assim como a pintura, a fotografia, a escultura). Toda a releitura literária dá à luz outra obra, de valor diverso. É outra versão. A releitura é válida para a música e para o teatro, nos quais se conserva o que há de literário e atualiza-se o que há de sonoro (na música) e cenário (no teatro). Vejam-se as diversas releituras de Asa Branca (a última, magistral, de Sivuca, no disco Sivuca Sinfônico) e de Hamlet (inclusive uma releitura em desenho animado: O Rei Leão). Ou mesmo as releituras de Lamento Sertanejo, o Forró do Dominguinhos. Não há releituras para Mona Lisa de Leonardo, nem para O Pensador de Rodin ou para Serra Pelada de Sebastião Salgado. Por isso eu não chamaria de releitura, mas de nova versão.

Gostaria de refletir sobre o caso de Coco Verde e Melancia . Uma das versões desse folheto, de 1958, editada pela Prelúdio Ltda, segundo página de rosto do folheto está registrada na Biblioteca Nacional sob nº 11452 traz como autor Manoel Pereira Sobrinho. A história é a mesma contada por José Camelo de Melo Resende, mudam-se os nomes dos personagens. No caso de Coco Verde, a versão de 58 é mais rica em termos gráficos, a capa é avançada para a época, com ilustrações bem cuidadas dentro do folheto, na verdade, três pranchas, que o colocariam à altura de outras publicação folhetinescas da época, cujo objetivo era atingir o público urbano, com foco no sexo feminino.

Dois casos

1.São Saruê: quando Manoel Camilo dos Santos escreveu Viagem a São Saruê não sabia no que estava se metendo. Certo dia recebeu a visita de Orígenes Lessa e ficou estupefacto com o alcance de seu folheto, que ele julgava despretensioso. Pois bem o folheto deu no documentário de Wladimir Carvalho, um marco, considerado o primeiro épico do sertão. Deu no livro infantil Aventuras em São Saruê, do próprio Lessa, que transforma Camilo em personagem. Resultou ainda em entrevista publicada em A Voz dos Poetas, da Casa de Rui Barbosa.

2.O boi misterioso: Leandro Gomes de Barros ao contar a história do boi misterioso abriu a porteira para O Boi Aruá, de Luiz Jardim, considerado o mais belo livro desse gênero (infanto-juvenil) por Monteiro Lobato e para História do Boi Incantado, canção épica de Elomar.

O que não posso afirmar é que essas versões, adaptações, releituras, fortaleceram a busca pelo cordel. Mas posso afirmar que definitavamente inseriram o cordel no contexto sócio-político-cultural do país.

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