O desenho no tapete, como diria Henry James (windows retiradas dos editoriais da Revista Confraria, com autorização)

por aderaldo

1. Os fundamentos. “A terra é redonda como uma laranja”, afirmara José Arcádio Buendía à sua amada Úrsula. Esta convenceu-se de sua loucura, mas Macondo cumpria sua saga e nada poderia deter a civilização. Perplexo diante das maravilhas trazidas pelos ciganos, entre elas um tapete voador, Buendía idealizava instrumentos, solitário. Seu modo de ver o mundo, circunscrito aos limites de sua aldeia, tornava-se um elemento incômodo à vida pacata e leve dos seus conterrâneos.

2. Os alicerces. Se a loucura é uma marca de exclusão, seja ela, a loucura, doença ou saúde mental, nós adentramos os seus labirintos. Entretanto, olhando pela janela, fica-nos a pergunta sempre imutável de Augusto dos Anjos: “Para onde iremos, montados nesse cavalo de eletricidade?” Sabe-se apenas de uma parada gay sob bombas em Jerusalém. De um Papai Noel pedófilo, preso em Nova York. De uma bomba-atômica testada com sucesso na Coréia do Norte.

3. As estruturas. Antes do Natal, antes do Ano Novo, ouçamos atentos os conselhos dos tarólogos: aprendamos com quem dá as cartas. Se cartas marcadas, se cartas na manga, se cartas de navegação: sejam todas epístolas de bem-aventurança, de boas novas. Todavia não esqueçamos que haverá sempre um lugar em que nada se cria, nada se transforma e tudo se perde. Não seja aqui. Navegar será sempre preciso, viver é que é impreciso!

4. Os tijolos. “Quando ando pelas ruas do Rio e de Salvador, os signos corporais transformam meu corpo europeu num outro ser”. Isso foi dito por Henri-Pierre Jeudy. Quando esteve pela décima vez no Brasil, em 2005, e lançou seu livro Espelho das Cidades, o filósofo-sociólogo-escritor pensava na espetacularização das cidades como mote de suas propagandas. Sobre o Brasil e a América Latina pensaríamos mais abrangentemente. O espetáculo é geral, horizontal e verticalmente, uma parábola. Ali na esquina dos mundos estão nossos governantes espetaculares, brandindo discursos e cerrando os punhos para a CNN. Que a terra lhes seja leve.

5. A cimentação. Quando nos deparamos com o naipe afro-cubano de Buena Vista Social Club e sua sensualidade, não vemos Habana Vieja espetacularizada. Seremos videntes e veremos espectros. Ghosts de um mundo antigo, de fausto apócrifo, de riquezas saqueadas, ruínas da história. Wim Wenders o gravou em vídeo digital. A tecnologia mais avançada resgatando a tradição mais conservadora. Seria o ouro sobre o barro. Ou o diamante sobre as asas, ou o desejo do ouro e a necessidade de possuir asas.


6. As lajes.
O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna num bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola. A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

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