Três coisas as quais eu não quero nem devo esquecer

por aderaldo

1. A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina.

2. É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia-a-dia, na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais, privando-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Mas não sem antes tentar espelir-me, tomando chás amargos para abortar. Todavia eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes àquele útero quente e promissor.

3. O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

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