Quadrão quirino (idealizado por João Rolim sobre original de Jessier Quirino)

por aderaldo

1.
A noite cai, o céu se rasga pela lua cheia
Uma candeia acesa e rica em chama poderosa
Noite gostosa meu barco paira no oceano prata
a serenata da estrela guia a mais luminosa
e eu, todo prosa, lanço meu grito, busco uma sereia,
Sangue na veia muito mais quente (é chama rugosa)
por vezes dosa o medo seco de esperançado
e esperançado somente o medo por vezes me dosa!

2.
Modalidade muito boa, preciosa e rara
Se equipara a outras tantas de difícil cria
Se todo dia fizermos versos que nos pedem brilho
Fora do trilho o nosso trem constrói neo-ferrovia
O cancão pia, a porca torce o rabo em parafuso
fazer bom uso da pena indócil que tudo copia
Com maestria buscando brilho mais original
Do original busco a essência: fé com maestria!

3.
Fogo na lenha, a noite esfria e é preciso colo!
Eu me enrolo nesse cabelo (edredom quentinho).
quero carinho tenho de sobra todo que preciso
imortalizo o corpo inteiro em lençóis de linho.
Digo baixinho: — Chega mais perto, roça aqui teu pêlo!
Ao meu apelo sinto a penugem, o seio durinho,
parece um pinho o corpo nu da mulher que me enlaça
e nos enlaça a labareda que parece um pinho!

4.
O novo causa nos incautos o estranhamento
Um alimento que, ao contrário, rouba a vitamina.
É uma mina de ouro e luz essa modalidade
Traz de verdade o desafio, o jogo, a disciplina.
Matéria fina que exige esmero, olhar meticuloso,
Requer que o gozo se demore, espere na oficina.
Cumprindo a sina reflito sério que quem for poeta
Se for poeta tente o quadrão cumprindo a sua sina!

<5.
Onde os poetas? Em que lugar se escondem trovadores?
Mostrem as cores. Entrem em campo trovando o quadrão.
Inspiração? Busquem no fundo, mais profundo canto
Onde o espanto cedeu lugar à realização.
Siga o João, siga a Tessa e também siga a mim
Fazendo assim vamos além da simples criação
Na escuridão se busca a luz, se encontra a lamparina
E a lamparina guia teu passo na escuridão!

6.
A língua trava contemplando a entranha inexprimível
Inexequível construir frases sem matéria exata
Um sol de lata, um céu de aranha, um arranha-céu,
som de tetéu, de arapongas com bicos de prata
bigorna intacta, o ferro em fogo é a língua em brasa
em cova rasa sepultar-se-á o poeta-pirata.
Sua pena rata é má, vilã, é cópia malfadada
E malfadada se auto-acusa sua pena rata.
>

7.
Qual a matéria que este quadrão por ela velará?
O Opará? O rio grande salvador dos bichos?
Os carrapichos? Essas estrelas perfuro-cortantes?
Talvez brincantes? Mambembes astros com os seus cochichos?
Os largartixos? Machos/calangos/teús/papa-ventos?
Os sentimentos? Fofocas/falas/delações/bochichos?
— Jamais os lixos que nos ofertam e que nos consomem
E até consomem a gente toda, mas jamais os lixos!!

8.
Pedras calcáreas: meu coração nelas se fere e morre
Nada socorre meus membros rotos, descascados, tortos,
Ervas são portos: cadê o cais para que eu atraque?
De baque em baque, meus olhos cegos, mais que cegos, mortos!
Pés absortos nas trilhas magras de um destino seco,
Sou um boneco, marionete que produz abortos.
Andei por hortos transfigurando meu semblante em luz.
Busquei a luz nos olhos Teus, fiz de Teus braços hortos!

9.
Mamãe morreu faz quinze anos, lembro todo dia
Da alegria que era tê-la sempre do meu lado
sentir-me amado, protegido do mundo estranho e duro
e do apuro que para mim era o viver pisado,
o agregado, aquele que trabalha ao sol diário,
cujo salário é ver seu cenho sempre enrugado.
Desse legado, mamãe livrou-me todo santo dia
E todo dia deu sua vida contra esse legado!

10.
Andei calado pelas esquinas dos desiludidos
dos desvalidos que já perderam fé e esperança
(uma criança de quem roubou-se o olho e o sorriso)
de improviso armei barraca e escondi minha lança.
Não quis a dança acabrunhado no canto da sala;
Fui à senzala viver com os meus, sonhar que se alcança
aventurança no suportar as dores sem fazer alarde
Mas fiz alarde: só no quadrão há bem-aventurança!

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