querem me obrigar a usar o powerpoint

por aderaldo

Ando desanimado. Dizem os alunos ”O professor Aderaldo está fadado ao suicídio!” ou “ O professor Aderaldo é um porre”. Tudo isso porque insisto em ser um mestre inovador e introduzir em sala de aula a leitura obrigatória. Repito com ênfase garrafal LEITURA OBRIGATÓRIA. Não engulo alguns pedagogos e pedagogas alardeando por aí, nesses seminários e congressos masturbatórios, a necessidade de a sala de aula (e a aula em si) competir com a internet, com o cinema, com a televisão. Querem me obrigar a traduzir para apresentações digitais (em PowerPoint, em Flash e em outras paranóias) minha escrita cadavérica no quadro-verde, ou branco (por onde andará o quadro-negro?), ao sabor do improviso requerido pelo momentâneo assédio dos meus interlocutores. Querem me transformar em um amasiado com o datashow. Num andróide com a mão aleijada em mouse.

Os alunos, e esses pedagogos e pedagogas, necessitam compreender o seu dever de se adaptarem à sala de aula (e a aula em si). Entendê-la como o espaço-tempo no qual o mundo fica suspenso, onde o prazer deve se confundir com o dever, o cansaço transmutar-se em força de vontade e a imagem projetada (na tela, na parede ou noutra coisa qualquer) diluir-se em palavras escritas e faladas, ouvidas e lidas e compreendidas. Nenhuma imagem falará mais que uma simples linha de Cervantes. Nenhuma imagem interpretará verdadeiramente a cicatriz de Ulisses. Sejam esses duvidantes consumidos no inferno de Dante, percam com Milton o paraíso, não subam ao sétimo céu, tomem a cicuta de Sócrates, reencarnem como O Diabo na Carne de Miss Jones e assumam a identidade de Linda Lovelace. Essa coisa de perfumar a sala de aula é transformá-la em escola de samba para o fatídico Carnaval da Sapucaí educacional.

Sou professor de Teoria da Literatura, o que já é uma emboscada, uma armadilha, um alçapão fedido. Obrigo-me a ler poetas medíocres, eles mesmos professores também, contistas com as favas contadas, romances tristes vendidos pelas editoras como a vanguarda da vanguarda da vanguarda, crônicas corroídas por bronquites crônicas. Para quê? Para retornar aos clássicos e maldizer e imprecar pelos corredores das faculdades e centros culturais e livrarias e ruas e vielas e sebos e sebosos. E agora toco com minhas teclas nesse outro monstro chamado “faculdade”. Em cada casebre ergue-se sobre o nada uma delas, tantas já apareceram e desapareceram, todas oferecendo cursos de letras e pedagogia e sonegando o pagamento aos professores que, por essa e por outras, descem a ladeira da motivação e, ao se depararem com a classe não-leitora, arrolam todos no saco putrefacto de sua indiferença. E temos ainda, nós professores, de tratar com donos de faculdades odiosos e chefes cujo cargo é apenas fruto do velho e nepótico QI.

Essa constelação “maravilhosa” é meu sepulcro caiado. Minha pedra de Roseta ao contrário. Meu cálice de fel. E tem mais: essa coisa de aula de Língua Portuguesa. Uma fraude, um acinte. E, por favor, leitor cruel, não pare sem ler tudo. Vou destrinçar. Esses professores de Português e gramáticos pregando insistentemente a gramática como regente da língua deviam ser condenados a falar para sempre, em todos os momentos de sua vida, de acordo com a gramática que vomitam. Vendem-nos a idéia apocalíptica aos berros: “para se escrever bem é necessário o conhecimento dela (da gramática).” Ora, a gramática é apenas uma amostragem de como a língua deve funcionar, não tem poder de polícia. Além do mais fica-nos a pergunta “Como é possível todo mundo ser obrigado a estudar por vinte anos a gramática e assim mesmo não saber nada de sua língua (pelo menos de acordo com o que se ensina nas escolas)?” Alguma coisa está errada. Porque a língua não se prende a um punhado de regras ou a como se deva ou não escrever uma palavra.

E retornamos ao nosso primeiro parágrafo. Só a leitura insistente será capaz de oferecer alguma saída para o exército de alunos trancafiados em suas próprias ignorâncias e enjaulados pela nossa. A reclamação mais viva e vívida, entre eles (os alunos), é a de que não têm tempo para ler. Então, por que estão fazendo o curso de Letras? Outros dizem não gostar da leitura. E me pergunto, em voz altíssima, como é isso. A nossa matéria básica é a leitura, não há outra. Deparo-me com alunos que: a) não gostam de ler; b)não sabem ler; c)lêem, mas não entendem o que leram (ou seja não sabem ler) e d)os turistas (os melhores, pelo menos não nos entubam). Em suma, a coisa é feia.

Agora, falando sério, já que o assunto acima é trivial e vulgar e redundante, há outra coisa insuportável. É aquela lista dos mais lidos (ou mais comprados). Todas elas! Parece haver um complô social contra nossa literatura. Dos dez livros de ficção mais lidos (e averiguo toda semana) aparece um ou outro nacional. E esse só entra na lista se, na semana, na segunda-feira, tiver aparecido no programa do Jô. Aí, nossa classe intelectual brasileira resolve ir às nossas horríveis livrarias procurar o famigerado. Passada a segunda semana, o dito cujo some para sempre. É um caso de polícia. Bem como é outro caso o preço médio do livro. Quando tocamos nesse assunto, toda linha de produção e comercialização se contorce e começa o jogo de empurra. Outro dia vi, com meus olhos esbugalhados e ensangüentados, boquiaberto e mudo, uma grande editora incinerar 100 mil volumes e outra vender como papel reciclável 50 mil. Nesse cenário desagradável repito com Adorno: não é possível mais fazer poesia. Entretanto pela quantidade de poetas existentes em nossos cursos de Letras, alunos e professores, Adorno está ultrapassado. Talvez chamando o Capitão Nascimento azeite-se a confusão, ou melhor, a discussão (ou será discursão?)!

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