para colocar as coisas em seus lugares

por aderaldo

Está claro para todos a divisão adotada pelas academias, leiam-se universidades, confrarias de letras, mercado editorial, professores e alunos dos cursos de letras e outros, pois bem, está claro, uma divisão sólida e bem administrada, entre literatura erudita e literatura popular. Essa divisão abarca outras artes como a música, a pintura, o teatro. Será preciso abrandar as diferenças, diminuir o preconceito, aclarar idéias, pensar.

Popular seria aquela poesia produzida pelo povo, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, freqüentadora da escola, bancária, como diria Paulo Freire. A distinção está posta à mesa, cabe-nos digeri-la. Vamos além, entretanto: cabe-nos ruminá-la.

Na sala de aula temos estudado poetas nordestinos os mais diversos: Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos. São os formadores de nossa veia culta, esmiuçados até seus mais insignificantes detalhes. A contribuição desses poetas é imensa e oferta ao Brasil sua face literária mais importante. São os nossos autores clássicos. Esses estão de um lado, habitam os livros, as bienais de literatura, os documentários, com justo merecimento.

Caminhando em estrada paralela, vezes em veredas, estradas vicinais, ao som do orvalho nos capins, aos pingos de canto de algum pássaro bravio, outros poetas, conhecidos na sombra, vivos nas ruas, nos cafés, no trabalho. São os poetas populares. Esquecidos da escola, habitam o folclore e o exotismo. Sua pena, sua letra, desce à mesma seara.

Os autores da literatura de cordel formam desse lado, do lado popular. E sua produção intelectual, também. Chegamos, pois a nossa encruzilhada. Se a literatura de cordel está colocada sob a égide da cultura popular, encontra-se segregada e desprovida de fundamentos teóricos mais persistentes que a façam entrar pela porta da frente da casa de nossos intelectuais. Mas, antes de entrarmos nesse raciocínio, faz-se mister, diferençar a poesia de cordel de outras formas de poesia nascidas e cultuadas no Nordeste brasileiro.

É muito comum os estudiosos de cordel colocarem no mesmo saco cordel e repente. Além de serem, o cordel e o repente, completamente distintos, encontram-se em lugares opostos no panorama da poesia nordestina. Vejamos.

O cordel e o repente são apenas mais dois no paradigma poético do Nordeste. Os meios de comunicação, embalados por opiniões equivocadas, propagou uma falsa unidade em todo produto poético emanado dos autores populares. Procuraremos apontar as diferenças e aproximações.

Há duas vertentes poéticas no Nordeste, como no mundo: a oral e a escrita. Na primeira encontraremos, cada uma com suas características e singularides:

o repente de cantoria,
o coco de embolada,
o aboio,
a glosa,
a adivinha,
a pulha.

Colocamos em ordem de complexidade criativa, com o repente de cantoria se apresentando como o sistema mais diversificado e complexo. Não vou esmiuçar, pelo menos agora, pois não tenho fôlego suficiente, essas categorias, vou apenas citá-las deixando ao leitor a tarefa do aprofundar-se.

Na vertente escrita:

a literatura de cordel
e
a poesia matuta.

Citaremos, ainda, uma categoria oriunda dos cantadores repentistas: as canções, que pela sua excelência poética eram, além de cantadas e apreciadas, vendidas em folhas soltas pelo próprio autor ou por revendedor de folhetos de cordel.

Alerto que esse rústico mapa da poesia nordestina é tão somente uma indicação para quem quiser aprofundar-se e estudar com mais afinco. Infelizmente, da mesma forma que aconteceu com o forró, quando não se consegue distinguir xote, baião, rojão, xaxado, coco, cometeu-se o engano de se reunir essa diversidade sob o guarda-chuva da literatura de cordel… (Vai continuar)

A tempo: Fique bem claro que odeio rótulos. Logo, não faço distinção entre poetas populares e eruditos: há lixo nos dois cestos. Pouco trigo e muito joio.

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