Voltei a pensar, a ação se fez

por aderaldo

1.
Pensemos com Augusto dos Anjos em Os doentes

Mas, diante a xantocróide raça loura,
Jazem caladas todas as inúbias,
E agora sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!
(…)

As reflexões do poeta são a janela para os nossos próprios olhos. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família.

Um índio chamado Galdino.
Um índio chamado Jesus.
Dos Santos.

2.
O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

Arrancou-se-lhe o cobertor,
virou-se-lhe a cama,
incendiou-se-lhe o sono,
fecundou-se-lhe o pesadelo.

3.
Gonçalves Dias, O Canto do Piaga

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracá.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

(…) Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

O silvo alertando para a cova profunda,
boca aberta,
escancarada, para sorver mata, índio, memória.

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