Um cordeiro para lá de brabo

por aderaldo

O amigo cordelista e interventor cultural Arievaldo Viana da Terra de Iracema, cumprimentou-me enviando-me um cordel inédito de Cordeiro Brabo. Claro que é uma paródia sobre o nome do velho Pacífico Pacato Cordeiro Manso (haja serenidade). O título do cordel é Recado de um poeta aos dotô niversitaro. Tratando de um tema muito vivo meio à Literatura de Cordel: a presença de pesquisadores mal resolvidos que, com miopia avançada, catarata ou glaucoma terminal, são incapazes de distinguir o joio do trigo no que tange à poesia cordelista. Apaixonam-se pelo canto da sereia e, com preguiça de averiguação mais cuidadosa e aplicada, desandam pelo mundo a propagar sua ignorância e a fazer adeptos. Desconhecem os verdadeiros e adoram os embustes.

E atenção: o Orkut está emprenhado de comunidades sobre cordel. O que menos se vê lá, entretanto, é o Cordel. São lotes e lotes de motes, centenas de “teoria do cordel”, barbaridades sobre métrica e outras aberrações. “Poetas” enfastiados vomitando rimas. Há aquelas, como sempre, que salvam a lavoura.

Nós, brasileiros, temos uma prática de boa vizinhança que nos leva a comungar com certas coisas, sem nos pronunciarmos. Pois bem, Ari é o culpado de trazer-me o verso malcriado e verdadeiro de Cordeiro Brabo:

Pesquisador tem mania
De aplaudir o que não presta
Pegando um cordel mal feito
Bate palma, faz a festa,
Se for poeta matuto
Grita logo, resoluto,
– Ô cabra bom da mulésta!

E se vier de Sorbone
Ou dos Estados Unidos
Se achar um velho matuto
De recantos esquecidos
Fazendo verso mal-feito
Só se dá por satisfeito
Se gravar seus alaridos.

Se encontrar um gravurista
Cortando tacos de pau
Ou mesmo um verso mal feito
De CUÍCA, ELE… O TAL!
Pensando ser coisa séria
Cria logo uma matéria
E publica no jornal.

Não vou publicar aqui o cordel todo. Cabe ao Arievaldo dá-lo a luz. Cito uma última estrofe na qual cita o pai da arte de fazer cordel:

Da Europa chegam doutores
Quase todo santo dia,
Para pesquisar Rodolfo,
Cuíca, Zé Melancia,
Porém não sabem o meandro
E desconhecem LEANDRO
O mestre da poesia!

Querem mais? A última estrofe do petardo, então:

Pesquisador quer saber
De pé-quebrado e gravura
Poetas que passam fome
Na beira da sepultura,
São estes que eles proclamam!
É isso que eles chamam
POPULAR LITERATURA.

Nada mal!

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