O passado trouxe-me um presente

por aderaldo

O Nordeste brasileiro é terra fértil. Longe daquele cenário de aridez contundente, de terra rachada e rezes secando ao sol, de almas peregrinas e corpos esqueléticos, há uma terra viva e pujante. Basta uma chuvinha para a paisagem transmudar-se do vermelho para o verde, dos rostos rasgados em rugas protuberantes para o sorriso atenuante das misérias. Naquele infinito resguardam-se, em axilas geográficas e sociais, resquícios mais recônditos de tempo imóvel ou lento. No dizer de Gilberto Freyre:

Diga-se de início do Nordeste brasileiro que, considerado numa perspectiva histórico-social que seja também antropocultural, além de ecológica, é não um só, porém dois ou três: um tropicalmente úmido, outro tropicalmente árido, um terceiro intermediário; que do seu homem do litoral – área canavieira ou agrária – se pode dizer vir sendo, à sua maneira, tão válido quanto o sertanejo glorificado pelos Euclides da Cunha; que é região que se apresenta, quanto à biologia da sua população, como a mais amplamente miscigenada do Brasil, com a mistura europeu-ameríndio-africana variando em proporções, numas sub-regiões predominando, depois do europeu, o ameríndio, noutras, o africano; que assim miscigenado o Nordeste vem dando ao Brasil, desde os dias coloniais, líderes políticos, líderes militares, intelectuais, religiosos, artistas; que essa capacidade de liderança, ao lado da combativa, antecipou-se em revelar-se no século XVII, quando a gente nordestina, nem sempre auxiliada, como devia ter sido, pelas metrópoles, portuguesa ou espanhola, expulsou do Brasil o invasor norte-europeu e protestante. Liderança, então, significativamente de um branco já da terra – Vidal de Negreiros; de um ameríndio – Felipe Camarão; de um negro ou africano de origem – Henrique Dias.

Ora, os três nordestes têm nome mais apropriado, no dizer do povo:
um é o

sertão,

aquele filho maltratado e esquecido por longas datas, no qual se viu florescer uma certa “indústria da seca”, por onde filhos do solo herdaram de sua condição sub-humana atitudes atrozes, os cangaceiros, e outros apegaram-se ao transcendente, romeiros, ambos com a estampilha do fanatismo timbrado em seus invólucros e conteúdos.

O outro é o

mar,

aquele no qual se estende o que, supostamente, seja o melhor dos trópicos, a fartura de água, a palmeira, a sensualidade, as ladeiras, um rol de maravilhas para onde o primeiro Nordeste aspira.

É tão violenta a diferenciação que se transformaram em antípodas essas duas condições, ao ponto de o messiânico Antonio Conselheiro preconizar a célebre exclamação “— O sertão vai virar mar!”.

O Romance Social de 30 cantou os dois cenários. Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz abriram as portas da “seca terrível que tudo devora”, enquanto Jorge Amado banhou-nos com seu mar baiano.

Há o terceiro nordeste: aquele que situa-se entre os outros dois. Conhecido como

Zona da Mata ou Zona Canavieira.

José Lins do Rego e o mesmo Jorge Amado nos apresentam essa faixa de terra mais fértil, mais fria e mais miscigenada, como aponta o Freyre.

Por ser um entreposto meio aos dois caminhos recebeu influências de quem passa para o litoral e de quem atravessa para o sertão. Os conflitos daí resultantes, também as intersecções e acordos, sincretismos e discrepâncias, são a matéria mais visível nos estudos sócio-culturais e antropológicos. É nessa faixa de terra, nesse meio, que se encontra a conhecida região do brejo paraibano. E é nesse brejo que encontraremos o cenário para minhas inquietações político-espirituais: a fantasmagórica cidade de Areia, pequena, pacata, adormecida e pagando seus pecados sob os olhos furiosos de casarões malassombrados e um passado de terrores!

E todos estão acordados e loquazes em meu quarto insone!

Anúncios