Entrevista a Ancelmo Góis

por aderaldo

O programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, vai ao ar às segundas-feiras a partir das 22:00h, apresentado por Ancelmo Góis e Vera Barroso. No programa sobre o mestre Vitalino de Caruaru fui um dos entrevistados falando sobre as intersecções entre a vida e a obra do mestre do barro e a Literatura de Cordel. Editei a matéria e o resultado está aqui:

Para a entrevista, pensando em emoldurar ludicamente a matéria, pedi a alguns poetas de cordel a gentileza de produzirem algo para que eu pudesse ler no programa, para provar a atualidade e o tom memorialístico do “deus do barro do Alto do Moura”. Como o tempo do programa é pouco, na edição foi para o ar apenas a leitura das estrofes de Rouxinol do Rinaré. Os que me enviaram, pedi licença para postar aqui os seus versos.

Marco Haurélio, pesquisador, poeta, autor de diversos cordéis, fã de Cancão de Fogo e João Grilo, curador da Coleção Clássicos do Cordel da Editora Nova Alexandria, enviou o seguinte:

Salve, Mestre Vitalino!

Salve, Mestre Vitalino,
Herdeiro da tradição,
Oleiro sacro divino,
Que criou com sua mão
Vida, pulsante e agreste,
O folclore do Nordeste,
A tradição pastoril,
A gesta dos cangaceiros,
Epopéia de guerreiros,
A alma deste Brasil.

Vem de Ribeira dos Campos
Este artista singular,
Que igualmente aos pirilampos
Nasceu para iluminar
A fatigante existência,
Tendo o barro por essência
De sua recriação
E, assim de modo preciso,
Faz lembrar Paraíso
Quando Deus criou Adão.

Ó bela Caruaru!
Impávido Leão do Norte
Caboclo selvagem, nu,
Terra augusta, a tua sorte
É semear a cultura,
É fazer bela figura
Nesse solo nordestino,
Que há cem anos viu nascer,
E jamais verá morrer
A arte de Vitalino.

Já o “frei” Varneci Nascimento, cordelista consolidado, historiador, agitador cultural, escreveu:

MESTRE VITALINO

Filho de mãe artesã
E um pai agricultor
Vitalino inda menino
Tornou-se observador,
Da mãe, pra poder depois,
Mostrar todo seu valor.

A mamãe com todo amor
De barro dava o restinho
Vitalino começou
Fazer boneco e jeguinho
De cerâmica modelando,
Um cangaceiro, um pratinho.

Trabalhando com carinho
Virou mestre e muito mais
De modo que sua obra
Tem dimensões mundiais,
Levando brasilidade
Para os centros culturais.

Sua mão tão perspicaz
O fez muito respeitado
Deu forma ao que ninguém
Ainda havia formado,
Com sua obra nós temos
Até cordel ilustrado!

Hoje imortalizado
Está esse nordestino
Que com o barro mostrou
O sertão de sol a pino,
E agora o cordel demonstra
Quem foi mestre Vitalino.

O cordel que é nosso hino
Do presente e do passado,
Como Vitalino foi,
Um ceramista arretado,
Jamais por nós, os poetas,
Deixará de ser lembrado!

Outro poeta, Celso Góis, profícuo e livre em sua arquitetura poética, lá de Canindé, no Ceará, mandou:

MESTRE VITALINO

Em julho do ano nove
(Século XX) nasceu
Nosso Mestre Vitalino
Que o mundo reconheceu
Fez da arte sua tribuna
Famoso mas sem fortuna
Muito pobre inda morreu.

Pernambuco foi seu berço
Seu torrão de nascimento
Tentou destaque na música
Mas tinha outro talento
Como na história de Adão
Retirou vida do chão
No barro do seu sustento.

Nascido em Caruaru
E lá mesmo residia
Não conheceu a escola
Não lia nem escrevia
Mas honrava seus irmãos
Com a cultura das mãos
Que para o Brasil fazia.

Sua arte encantou
E encanta ainda a nação
Admirado no mundo
Ao Brasil deu projeção
Grande Mestre Vitalino
Orgulho do nordestino
Que ama e cultua o chão.

Na reflexão profunda sobre o mito criador, com sagacidade, o poeta Bem-te-vi Neto, enviado por Arievaldo Viana:

Diz a Sagrada Escritura

Que Adão foi feito de barro
Mas essa história eu não narro
Porque é mentira pura…
Inda tem gente que jura
Que tudo isso é passado,
Deus é um Santo Sagrado,
Ele nunca foi “loiceiro”
Pra estar dentro dum barreiro
Fazendo cabra safado!

E os versos completos de Rouxinol de Rinaré:

CENTENÁRIO DE MESTRE VITALINO

Agora em dois mil e nove
Festeja-se o centenário
De Vitalino Pereira
Que em seu itinerário
Virou “Mestre Vitalino”,
Artista extraordinário!

Talento e imaginação
Não faltou ao ceramista.
Como Deus formou Adão
(Cá no meu ponto de vista)
O barro ganhava formas
Nas mãos desse grande artista.

Luis Gonzaga cantou
O Nordeste em seu baião.
Mestre Vitalino, em barro,
Moldava com precisão
Cenários e personagens
Que via pelo sertão.

Nasceu em Caruaru,
Mas percorreu o país.
A arte rompe fronteiras,
Existe um jargão que diz,
E a arte de Vitalino
Chegou ao Louvre, em Paris!

Agradeço demais a todos que contribuíram e aos que não puderam, pois o chamado foi na véspera da gravação do programa na Chácara do Céu, em Santa Teresa no Rio de Janeiro. Lembrando que a simpatia de Ancelmo Góis e o bom humor e descontração de toda a produção do programa são coisas que merecem ser anotadas.

Deixando alguns créditos ainda: solfejei a música Caldeirão dos Mitos, de Bráulio Tavares, gravada por Elba Ramalho. Essa música ouvi pela primeira vez com o próprio Bráulio cantando num dos Festivais de Arte da cidade de Areia, na Paraíba. Na época eu era um menino que queria ser artista.

Durante a entrevista citei ainda a música O deus do barro, cantado por Petrúcio Amorim. Na edição final do programa não foi para o ar, mas posto aqui o clipe.

Não posso esquecer os bons préstimos de Arievaldo Viana, poeta e nosso professor de cordel, pela vontade com que mobilizou outros poetas. A ele agradeço o cordel de Arlene Holanda, com quem pude trocar meia dúzia de palavras. Tampouco esquecerei de João Gomes de Sá, amigo recente, poeta cordelista antigo, sempre amável e receptivo aos meus pedidos.

É isso.

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