O caso do Pavão

por aderaldo

Temos defendido que o cordel influenciou as cantorias e não só estas inluenciaram .Esta estrofe do cantador Dimas Batista abona o que dizemos, com clareza:

Basta um cabra não ter disposição
Pra viver do serviço de alugado,
Pega numa viola e bota ao lado,
Compra logo o Romance do Pavão,
A peleja do diabo e Riachão,
E a História de Pedro Malasarte,
Sai no mundo a gabar-se em toda parte
E a berrar por vintém em mei da feira,
Parasitas assim desta maneira
É que tem relaxado a minha arte.

O alerta de Dimas Batista deixa-nos convictos de que o poeta repentista, o cantador, se sente superior ao poeta de bancada, como eram chamados os poetas cordelistas, e, desgraça das desgraças, era encontrar-se um repentista que decorara versos de outrem para se gabar. Sabemos que o Romance do Pavão a que se refere o poeta é o Romance do Pavão Misterioso, clássica história de cordel cuja autoria foi motivo de controvérsias e hoje, a partir do depoimento do poeta Manoel d’Almeida Filho, se atribui a José Camelo de Melo Resende, que em suas reedições passa a esclarecer:

Quem quiser ficar ciente
Da história do pavão
Leia agora este romance
E preste bem atenção.
Que verá que esta história
é minha e de outro não.

Há muitos anos versei
Esta história, e muitos dias,
Fiz uso dela sozinho
Em diversas cantorias,
Depois dei a cópia dela
Ao Cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
Mostrou-a a um camarada,
— A João Melquíades Ferreira,
E ele fez-me a cilada
De publicá-la, porém,
Está toda adulterada.

E como muitas pessoas
Enganadas tem comprado
A diversos vendelhões
O romance plagiado
Resolvi levá-la ao prelo
Para causar mais agrado.

Portanto eu vou começar
A história verdadeira
Na estrofe imediata
E no fim ninguém não queira
Dizer que ela é produção
De João Melquíades Ferreira.

Na Turquia, a muitos anos,
Um viúvo capitalista
morreu, deixando dois filhos:
Batista e Evangelista
Todos os dois eram João,
Sendo o mais velho o Batista.

Vê-se tanto no corpo do folheto de João Camelo, como na estrofe de Dimas, que era comum o recitar e cantar histórias em cordel nas cantorias, mais uma vez abalizando o que viemos dizendo que o cordel influenciou o repente. Os outros cordéis citados por Dimas são A peleja do Diabo e Riachão, de Leandro Gomes de Barros, e A vida de Pedro Malazartes, de Antonio Teodoro dos Santos.

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